Uma pista de dança diferente: sem eletrônico e sem ecstasy

Ao entrar na sala de cinema para ver Chega de Saudade , um susto. A pessoa mais próxima da minha faixa etária deve ter nascido na época em que Lenin elaborava a Revolução Russa, em 1917. Logo me dei conta de que não era nada tão incomum. Afinal odos querem se ver na tela e o filme de Laís Bodanzky fala da “melhor idade”.

Laís nao economiza nas rugas, manchas senis ou nos sorrisos amarelados. Tudo está presente neste longa inteiramente passado num típico “baile da saudade”. Entre um tango e um samba de breque, vamos conhecendo um pouco sobre as vidas de seus frequentadores. Senhoras e senhores ávidos por um pouco de diversão.

Alice (Tônia Carrero) e Álvaro (Leonardo Villar) estão entre os freqüentadores mais antigos. Antes o rei do baile, Álvaro, agora, com o pé imobilizado, deixa-se absorver pelo rancor e o fantasma da ex-mulher, traduzindo o seu estado de espírito num cortante mau humor. Quem mais sofre com isso é Alice, cujos olhos não conseguem se despregar do seu amado, mesmo quando se encontra do outro lado do salão. Ao contrário do velho ranzinza, encara tudo, inclusive um problema sério de saúde que se avizinha, com um delicioso encanto pela vida.

Marici (Cássia Kiss) parece até jovem demais num lugar onde boa parte poderiam ser seus pais. Assim como Alice, ela também tem olhos para uma única pessoa: Eudes (Stepan Nercessian). Este, no entanto, baila pelo salão como um passarinho que não tem pouso certo. Apesar de já terem uma história juntos, o pé de valsa fica hipnotizado assim que avista Bel (Maria Flor). Ela apenas acompanha Marquinhos (Paulo Vilhena), o namorado e técnico de som do lugar, mas deixa-se cortejar por Eudes, provocando a ira do garoto e criando um quadrado amoroso.

E assim o baile prossegue. Viúvas solitárias, galanteadores de profissão, garotões pagos por dança, amantes surpreendidas pelas esposas cruzam-se pelo salão, enquanto Elza Soares canta e uma câmera rápida e precisa nos revela um mundo onde a alegria parece triste, mas a tristeza vem cheia de esperança.

Elenco de primeira, onde em que até Paulo Vilhena está muito bem. Nenhuma supresa, porém, se lembrarmos que foi a mesma Laís Bodanzky quem nos mostrou que Rodrigo Santoro sabia atuar (em Bicho de Sete Cabeças, 2001). Vale destacar, no entanto, as interpretações de duas feras: Cássia Kiss e Betty Faria. Se ambos os personagens entrassem mudos e saíssem calados, mesmo assim teríamos entendido tudo. Apenas com o olhar, Cássia é puro ciúme e despeito em cada cena, cada take; Betty é toda frustração. Elza, sua personagem, entra no baile, como diria Clarice Lispector, com “a procura no rosto”. E, aos poucos, vemos a intensa decepção apoderar-se dela numa escalada progressiva e um desfecho desolador.

Ao contário de Bicho de Sete Cabeças, Laís agora não quer chocar, nem tampouco denunciar. Chega de Saudade fala de encarar o fim, rir das limitações e dar uma chance ao amor.

Cotação (0 a 5): 4,0 – Petit four

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2 Respostas to “Uma pista de dança diferente: sem eletrônico e sem ecstasy”

  1. Incrivel ler seu texto agora, tendo assistido ontem ao filme.
    Delicia de filme e sensibilíssima direção, nem vou citar atores.
    Impossível de se esquecer da história (pra mim, a melhor) de Stepan e Maria Flor.
    Aperto no coração!!

    bj do hector.

  2. Dizem que a Tônia ficou abaladíssima quando se viu na tela, sem maquiagem e rugas assim, tão expostas.

    Tadinha

    dl

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