Os fantasmas de Ian Curtis

Como entender alguém que está prestes a chegar ao auge de sua carreira e resolve deixar cair o pano? Com essa pergunta na cabeça eu fui assistir a Control, longa de Anton Corbijn, que estréia na próxima sexta no Rio e em São Paulo.

O filme conta a história de Ian Curtis. Britânico de Manchester, Ian monta uma banda com seus amigos, influenciado pelos ícones que dominavam a cena musical de meados dos anos 70, como David Bowie, The Clash, Lou Reed e Iggy Pop. Nascia o Joy Division.

A banda e seu casamento precoce com Debbie Curtis eram os pilares de sua vida. Mas enquanto o grupo despontava, sua relação arruinava-se. A biografia de Debbie, Touching from a Distance, foi o material fundamental para o diretor construir o mosaico de relações e paixões do jovem músico.

Fotógrafo famoso e sempre ligado ao mundo da música, o holandês Anton Corbijn afirma que foram as canções do Joy Division que o fizeram trocar a terra dos moinhos pela Inglaterra em 1979. De fã passou a colaborador da banda e são dele algumas das fotos mais famosas de Ian Curtis. Com uma carreira que inclui capas para revistas conceituadas como Esquire, Rolling Stones, Mojo e Time Out, de singles de nomes estrelados como U2, R.E.M. e Morrissey, no entanto, é com os seus videoclipes que o nome de Corbijn costuma ser associado. Do bizarro ao soturno, o holandês fez trabalhos marcantes com (clique na banda para ver o clip) Echo & The Bunnymen, Nirvana, Front 242 e Roxette. Mas é com o Depeche Mode a sua parceria mais longeva: entre 1986 e 2005 trabalharam juntos em 19 videoclipes, marcados ora pelo preto-e-branco, ora pelas cores fortes, como o laranja, e cheios de sombras e imagens desfocadas.

A fotografia é peça fundamental em Control. O diretor, estreante na direção de longas, assumiu preferir tons monocromáticos e não tem dúvidas de que o velho p/b é o que mais caracteriza Ian Curtis. Do elenco, destacam-se as peças-chave: Sam Riley, vivendo o músico e Samantha Morton, a esposa. Riley preparou-se seis meses para o papel e, assim como o resto dos atores que compõem a banda, realmente toca e canta no filme. Samantha é das britânicas clássicas: se entrega ao papel sem medo e tem uma carga dramática que lembra Emily Watson.

Com crises constantes de epilepsia, mas uma doença que pode ser controlada, e com um casamento naufragando, quando apaixona-se pela belga Annik, a pergunta do início do post volta à tona. Seriam estes motivos suficientes para o músico de 23 anos acabar com a própria vida?

O suícidio, o ato mais feroz e deseperado que uma pessoa pode cometer na vida, dificilmente consegue ser explicado em qualquer caso. Não seria diferente com Ian.

Pressionado em conseguir resolver as histórias com as duas mulheres mais importantes de sua vida? Refém de algum problema neurológico depois de tantas drogas preescrevidas pelos médicos para sua epilepsia? Incontrolável medo do sucesso que chegaria a níveis estratosféricos após a turnê que a banda faria nos EUA em poucos dias? Não se sabe.

Tirar a própria vida, longe de um ato covarde, é, sim, um ato solitário e de extrema coragem. Semelhante a uma declaração dada por um dos músicos na época do lançamento do filme no Festival de Cannes de 2007, me vêm à cabeça uma frase de Van Gogh, “o suicida faz com que os amigos e familiares sintam-se os seus assassinos.” Sinais são mostrados sem que tomemos conhecimento da gravidade. Mas, apesar disso, com os medos e frustrações mais secretos só a própria pessoa pode lidar.

Talentoso e deprimido, os olhos e as letras de Ian Curtis combinam com as últimas palavras de Van Gogh, depois do pintor atirar contra o próprio peito: A tristeza durará para sempre.



Cotação (de 0 a 5); 4,0 – Petit four

PS: Tomo a liberdade de dedicar este post a quem infelizmente associo a este assunto e a boa parte do que escrevi aqui. Uma das pessoas mais brilhantes que conheci. Em 18 de maio de 1980, Debbie e os fãs perdiam Ian Curtis. Não tanto tempo atrás assim, eu perdia João Xavier. Nem mil posts renderiam uma homenagem à altura da importância que você teve na minha vida. Você se foi, mas a dor continua para sempre, João.

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7 Respostas to “Os fantasmas de Ian Curtis”

  1. Welton Trindade Says:

    Suicidar-se, um ato de coragem? Tenho muito dúvidas sobre isso. Para mim, coragem seria enfrentar a situação e não escolher uma saída tão cara quanto tirar a própria vida.

  2. emocionante…

  3. Diretor certo, ator certo e banda perfeita. Favorito a melhor do ano, desde já.

  4. Eita, gostou mesmo hein, Daniel?

    Este tem sido um bom ano para as interpretações masculinas.
    Já vi umas 8 muito boas.
    E a do Sam Riley, dude, realmente está matadora!

    Bjo.

  5. Marcelo Pinho Says:

    Não sei definir um suicida, mas dizer que suicídio é ato de coragem é no mínimo desmerecer aqueles que superam suas provações.
    Não assisti ao filme, mas já gostei mais desse maníacos depressivos britânicos, hj em dia, sei lá.
    Reconhecimento e gratidão no PS. Há mais coração ali do que no texto inteiro e imparcialmente eu acho que esse parágrafo valeu o post, pois a amizade e os laços da alma não se rompem com a separação.

  6. Eu tb já gostei mais deles, e não os idolatro nem os acho melhores por terem ido cedo. Não vejo nenhum mérito nisso.

    Valorizo quem consegue se levantar e consegue dar um sentido a sua vida. Mas também reconheço quem não consegue. Há pessoas – como ele – que dão sinais claros de que precisam de ajuda e, inclusive, tb como ele, tentam outras vezes se matar, como um pedido de socorro para os mais próximos, para a humanidade, pois não conseguem sair sozinhos disso. E, uma vez que não são ouvidos, recorrem a este ato desesperado que, na minha opinião, é um ato de coragem sim. Não é fácil jogar a coisa mais preciosa que vc tem pra cima.

    Mas não os glorifico não. Acho apenas isso: uma atitude desesperada, honesta e corajosa de quem infelizmente não conseguiu resolver os seus problemas, os seus medos, os seus males. E conseguiu, parabéns. A vida continua e sempre mais bonita.

    De qualquer forma, estes meus pensamentos estão sendo trabalhados. Nada é definitivo. Nem sei se um dia será. Desde outubro de 2006, quando fui confrontado com essa situação, tenho pensado a respeito. É isso.

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