Arquivo para julho, 2008

O Público: Difícil espetáculo com a abordagem mais gay do ano

Posted in A la carte with tags , , , , , on julho 31, 2008 by claesen

O Grupo XPTO é bastante conhecido no país. Seus espetáculos são famosos sobretudo pela manipulação de bonecos. Mas não são os bonecos os protagonistas de O Público, peça que o diretor Osvaldo Gabrieli desejava montar há vinte anos, quase a idade do grupo, o qual nasceu em 1984.

O espetáculo de Federico Garcia Lorca ganhou sua primeira montagem brasileira. O argentino Gabrieli responde, além da direção, pela cenografia, direção de arte e é co-responsável pela tradução do dificílimo texto de Lorca.

A história trata de uma montagem da famosa peça de Shakespeare, Romeu e Julieta. Desafiador, o diretor substitui a atriz que interpreta Julieta por um jovem de 15 anos. O público descobre, arma um verdadeiro levante no teatro e assassina os atores.

O espetáculo é longo, o texto hérmetico e, por vezes, quase incompreensível. A encenação lembra os espetáculos do Teatro Oficina, com quem Gabrieli trabalhou na recente montagem de Os Sertões. Visceral, este argentino conduz toda a história, interpretando, no início, o diretor do espetáculo, passando pela enigmática e triste Figura de Guizos até o desbunde de sua Guilhermina. Os cenários (são dois palcos, o público é conduzido depois de um certo tempo para um local maior, à uma dezena de degraus abaixo) são funcionais e inteligentes.

Com um elenco inteiramente masculino, mas não por isso, a abordagem e concepção do espetáculo é bastante homoerótica. Com figurinos sensuais, por vezes fetichistas, não poupando o nu de quase todo o elenco, O Público, é sexy, mas se se pretendesse um diálogo maior com seu objeto-título sairia-se muito melhor. Citando uma fala do personagem-diretor, sempre resta-nos o plástico, a purpurina. E ela é tão eficiente neste caso que não há necessidade de assassinarmos o elenco ao final.

Cotação (0 a 5): 3,0 – Arroz com feijão

M83: O nome veio de uma galáxia e o som é uma viagem espacial

Posted in Al dente, Sugestão da casa with tags , , , , , , on julho 30, 2008 by claesen

Confesso que os singles anteriores do M83 não despertaram interesse suficiente para citá-los aqui, mas quando eles lançaram o novo, Kim & Jessie, conquistaram-me. Baixando o quinto e mais recente álbum da banda, Saturdays = Youth, você confere a deliciosa viagem deste duo formado na França, em 2001, por Nicolas Fromageau e Anthony Gonzalez.

O som da banda é descrito como post-rock, categoria que engloba também os finlandeses do Sigur Rós e os brasileiros do Hurtmold. É do Sigur Rós, aliás, de onde veio um dos produtores do seu último álbum, Ken Thomas.

Fiquem então com Kim & Jessie, o terceiro single desta banda que me confirmou que nem só de amores à primeira vista se faz a cena musical.

O Cavaleiro das Trevas: Quando o caos tem nome

Posted in A la carte with tags , , , , , on julho 30, 2008 by claesen

É praticamente impossível a uma pessoa minimamente informada entrar no cinema para ver Batman – O Cavaleiro das Trevas indiferente a tudo o que já se disse sobre ele: o melhor filme do Morcego, a estréia mais rentável de todos os tempos, o possível Oscar para Heath Ledger – que por sinal já foi eleito um dos maiores vilões do cinema – e, até, um dos maiores filmes de todos os tempos. Pois é. E, sem muito suspense, Batman é quase tudo isso.

O diretor Christopher Nolan já havia assinado outra aventura do sombrio herói em 2005, Batman Begins, que era um flashback em relação às histórias anteriores. E apesar das excelentes direção de arte, trilha sonora e efeitos, um amontoado de cenas deixava-o confuso e insípido. Mas veja bem, insípido já é uma evolução se compararmos com catastrófico, adjetivo adequado aos Batmans de Joel Schumacher na década de 90.

Em O Cavaleiro das Trevas, Nolan mantém a excelência técnica de encher os olhos, só que o conteúdo mudou. Nesta seqüência, Batman, o comissário de Gotham City e um promotor se dedicam a combater o crime organizado. Até que uma mente criminosa acima da média mergulha a cidade no caos e, no combate a ele, o homem-morcego quase ultrapassa a linha que separa o herói do justiceiro, o policial severo e eficiente dos esquadrões da morte.

Sem dúvida, Christian Bale é o Batman mais convincente até agora – chance desperdiçada por Michael Keaton e o inssosso Val Kilmer. Bale é o tipo de ator que não deixa uma cena mal construída. O elenco que o cerca está a altura, com Aaron Eckhart e Maggie Gyllenhaal. E há, claro, Heath Ledger. Confesso que sua primeira cena não me impressionou; a segunda um pouco mais e assim por diante; quando me dei conta, o australiano havia hipnotizado a mim e a sala toda com seu Coringa. Se não fosse por todo o resto, só Ledger já paga o ingresso. Desde Homem Aranha 2 (2004) não se via um blockbuster tentar ir tão além da superfície. Pode não ser o maior filme de todos os tempos, mas é bom cinema.

Cotação (0 a 5): 4,5 – Iguaria fina

Acho que o Does It Offend You, Yeah? não dorme muito bem

Posted in Al dente with tags , , on julho 27, 2008 by claesen

Banda que faz bastante sucesso entre o povo moderninho, o Does It Offend You, Yeah? ainda não havia aparecido no Digestão.

Os britânicos, que costumam ter seu som catalogado como disco-punk, já lançaram vários singles de sucesso como Let’s Make Out e We Are Rockstars. Bem menos barulhento, sai agora Dawn Of The Dead, um mês antes do primeiro álbum dos caras, You Have No Idea What You’re Getting Yourself Into, chegar às lojas.

Preparem-se pois os sonâmbulos estão chegando.

O peixe morre pela boca

Posted in Buffet variado with tags , , , , on julho 25, 2008 by claesen

Então, a pessoa passa a vida toda (leia-se três anos) construindo uma imagem de que nunca passa sequer na porta do número 324 da rua Guaicurus (leia-se The Week) para ter que ir DUAS VEZES com apenas UMA SEMANA de diferença?

Vejamos:

* 03/10 – Aniversário de 3 anos do Vegas na The Week – com James Murphy & Pat Muhoney + Glass Candy + Ewan Pearson

* 10/10 – Sob patrocínio da Chilli Beans, shows com Vive La Fête + Plastik Elektronik + Stop Play Moon

Quem manda frequentar clubes pequenos onde com 500 pessoas já deu lotação máxima? Aliás, às quintas-feiras aquele povo sem camisa fica trancado em casa, não fica?

O pop delícia do Blondfire

Posted in Al dente with tags , , , on julho 24, 2008 by claesen

Não é incomum meu namorado ou amigos me perguntarem quais as diferenças entre um gênero musical e outro. Não sei se os esclarecia muito bem, mas confesso que até há pouco tempo eu tentava. No entanto, vivemos numa época em que a mistura de estilos, sons e gêneros é o dominante e não a exceção como antes. Hoje, você fica três dias sem se atualizar em sites de música e pronto: você perdeu o nascimento de outro estilo. Há tantas fusões, ramificações e revivals retrabalhados que estou pensando em jogar a toalha. E pensar que um dia eu já respondi pelas definições de estilos como house e tecno para o Almanaque Abril!

Electro-clash, electro-rock, electro-house, electro-funk, electro-punk, disco punk, space disco, cold wave, new rave… São tantos nomes para sons que, às vezes, se diferem muito pouco entre si. Enfim, cansado de tantos nomes eu ouso a criar um bem simples: o POP DELÍCIA. Serve para aquelas bandas que não são rock, nem eletrônico. Que soam sofisticadas, mas sem muitas firulas. Que são deliciosas de se ouvir, enfim.

Depois do Glass Candy, o qual minha vizinha macumbeira já deve ter decorado todas as letras de tanto que se ouve aqui, encantei-me com Blondfire. A dupla é formada pelos irmãos Erica e Bruce Driscoll e lançou há pouco tempo o álbum My Someday. Difícil parar de ouvir as canções que ora lembram Belle & Sebastian ora Saint Etienne, mas sobretudo, os Cardigans. E, pasmem, Blondfire é meio americano/meio brasileiro. Então, quando me perguntarem qual é o gênero de uma das minhas bandas do ano, vocês já sabem qual será a resposta.

Uma Garota Dividida em Dois: Noir insípido

Posted in A la carte with tags , , , , , , on julho 23, 2008 by claesen

A respeito de Uma Garota Dividida em Dois vou usar a frase de uma grande amiga minha, Margarete Pinto, que diz “Claude Chabrol me cansa”. Sabemos que ele é um nome importante do cinema francês, responsável por filmes muito bem construídos como Ciúme – O Inferno do Amor Possessivo, Mulheres Diabólicas e Madame Bovary. Pelo menos, assim achava eu quando os vi nos anos 90. Isso sem falar de um passado mais remoto, quando o ex-crítico de cinema virou cineasta e lançou – com Nas Garras do Vício – um dos movimentos mais importantes da cena no século 20, a Nouvelle Vague

No entanto, está difícil se empolgar com algo de Chabrol nesta década. Até agora me pergunto o que fez a crítica receber tão bem A Dama de Honra e Comédias do Poder. Filmes enfadonhos que desperdiçam uma boa premissa e um ótimo elenco. Não é tão diferente de Uma Garota, seu mais recente trabalho.

Não demora muito para que você perceba que o título tampouco faz sentido. Gabrielle (Ludvigne Sagnier, cada vez mais bela) sente-se atraída de imediato pelo escritor décadas mais velho do que ela, Charles St. Denis (François Berléand, com um ar de cinismo imbatível). É dele seu coração, seu corpo, seus sonhos. O bon-vivant Paul Gaudens (Benoit Magimel) é, desde o início, apenas um apêndice em sua história. Um belo e aristocrático apêndice, é verdade. O rapaz tanto insiste que Gabrielle casa-se com ele no velho esquema de esquecer uma paixão com um casamento e uma viagem. Mas os problemas não se resolvem e não é exatamente um ‘foram felizes para sempre’ o que acontece após o casamento.

Ludvigne Sagnier volta a um papel que oscila de angelical à pura perversão, como em Swimming Pool, de François Ozon. Arrebatadoramente sexy. Todo o elenco funciona, se não fosse o roteiro previsível e a direção sem imaginação, com ares de um noir cínico e decadente, mas sem charme algum. No final, concordo com as idosas ao meu lado (e maioria no cinema) saindo da sala: ele já fez coisas melhores, não é, Ruth? É, elas devem saber do que estão falando.

Cotação (de 0 a 5): 3,0 – Arroz com feijão