Arquivo para agosto, 2008

Violência Gratuita: Haneke refilma seu jogo de horror

Posted in A la carte with tags , , , , , on agosto 31, 2008 by claesen

Não são de fácil digestão os filmes de Michael Haneke. Sim, ele é esquisito. Nenhum filme dele te deixa numa situação cômoda ou confortável. Não é por isso, também, que eles sejam obras-primas. Seu mais recente, Violência Gratuita, não foge à regra.

Violência Gratuita é um remake de um filme dele mesmo, com a diferença do primeiro ter tido produção austríaca e, o mais recente, americana. Inclusive cenários e ângulos de câmera são os mesmos. Quando Gus Van Sant fez isso com Psicose (1998), realizando o mesmo filme do mestre Hitchcock quarenta anos depois, até podemos compreender se ficarmos com a palavra “homenagem” na cabeça, mas refilmar o próprio filme da mesma maneira, parece-me uma incrível falta do que contar.

Havia visto a primeira versão de Violência na Mostra Internacional em 1997. Chocou-me muito, é verdade, mas eu não precisava de uma versão americana do filme hoje para conseguir refletir sobre ele. Bastaria alugar a cópia do filme original. Na trama, um casal (Naomi Watts e Tim Roth – ótimos sempre) e seu único filho chegam a sua casa de veraneio para o início de suas férias. Em suas vidas aparece uma estranha dupla loira: Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbet). Aparentemente inofensivos, eles irão se divertir fazendo um macabro e perigoso jogo físico e intelectual com a família.

Se Naomi e Roth mantém o padrão de interpretações dilacerantes, o maior destaque aqui é Michael Pitt. Com 27 anos, o loirinho especializa-se em personagens controversos, não tem medo de cenas polêmicas e invariavalmente está em ótimas produções. Veja-o em Hedwig and the Angry Inch (2001), Bully (2001), Os Sonhadores (2003) e Last Days (2005). Ele está também nos próximos filmes de Oliver Stone e Abel Ferrara. Seu desconcertante vilão Paul é de longe onde o filme mais ganhou em relação à versão anterior.

Violência não tem a força de A Professora de Piano (2001), mas pelo menos é bastante superior a Cachê (2005), na minha opinião, uma das produções mais superestimadas pelos críticos naquele ano. Então, vista o casaco, tome um Dramin – para não enjoar – e prepare-se para as quebras dos convencionalismos de Haneke. Mesmo que você já pudesse ter feito isso 11 anos atrás. O filme estréia dia 19 de setembro.

Cotação (de 0 a 5): 3,5 – Comidinha honesta

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O Procurado: Mate muitos e salve alguns

Posted in A la carte with tags , , , on agosto 27, 2008 by claesen

Talvez seja limitação deste jornalista ao constatar que com exceção de Batman – O Cavaleiro das Trevas, nenhum filme de ação empolga-me o suficiente hoje em dia. Os roteiros seguem um esquema milimétrico com doses contadas como numa prescrição médica para te deixar agitado, depois tenso, leve e por que não excitado, quando os corpos dos protagonistas se desnudam. Essa receita é seguida à risca em O Procurado, em cartaz nos cinemas.

O longa é uma produção americana do diretor cazaque Timur Bekmambetov, cuja trama gira em torno de um sociedade secreta auto-denominada Fraternidade. Eles são assassinos profissionais que seguem uma lógica bastante particular: matam pessoas cujos nomes são revelados por um tal Tear do Destino, com a intenção de livrar a humanidade dos mesmos.

O intuito do diretor é que você se identifique com Wesley (James McAvoy), um contador que sofre de ansiedade, com uma chefe que se porta como uma bruxa, um colega de trabalho que tem caso com a sua namorada e nenhum sentido na vida. Mais perdedor impossível. A ele é apresentada a Fraternidade através de Fox (Angelina Jolie), cada vez mais tatuada e sexy e com pouquíssimas falas durante o filme.

O pressuposto é tão improvável quanto a maioria das cenas do filme. Ressalta-se que, ao menos, elas são muitíssimo bem realizadas, algumas de tirar o fôlego. Curioso notar que os “mocinhos” não dão a mínima para as dezenas de pessoas inocentes que morrem pelo caminho. No fim, você compra um filme que tem como lema “mate um, salve milhões” mas acaba levando o contrário.

Cotação (de 0 a 5): 2,5 – Petisco básico

Ensaio Sobre a Cegueira: O caos perturbador de Meirelles

Posted in A la carte with tags , , , , on agosto 25, 2008 by claesen


Apesar de uma co-produção com o Japão e o Canadá, com locações em Montevidéu e Toronto e a história se passar numa cidade fictícia, Ensaio Sobre a Cegueira do diretor Fernando Meirelles é, basicamente, um filme paulistano. Os cartões postais da cidade estão todos lá: as escadarias do Theatro Municipal, o Viaduto do Chá, a Avenida Paulista, o Minhocão, a Ponte Estaiada. Segundo meu amigo Lipp Sant’angelo, uma das graças do filme é tentar adivinhar as locações – se é que dá para achar graça num filme tão tenso e sombrio.

Baseado – como todos estão cansados de saber – na obra-prima de José Saramago, o filme trata de uma misteriosa epidemia de cegueira. De repente, um a um, os habitantes de uma cidade não identificada são acometidos pela doença. Os primeiros infectados são isolados num hospital desativado. A eles, juntam-se, cada vez mais, novos casos de contágio que vão superlotando o lugar. No meio de todos, apenas uma pessoa parece imune à doença: A Mulher do Médico (Julianne Moore).

Não à toa, o adjetivo que mais se ouvia para definir o filme após sua primeira exibição no país nesta segunda era “pesado”. A famosa cena de estupro que tanto horrorizou platéias em sessões experimentais do longa foi cortada mas, segundo Fernando, estará presente na versão em DVD. Ainda assim, longe de ser palatável, Cegueira é cruel e implacável com seus personagens sem nome.

Meirelles usa bem o que ele chamou de “truques” para que o espectador se entregue à história. Imagens fora de foco, sons disassociados de imagens e principalmente o branco. Um filme absurdamente claro para falar da escuridão. Vale ressaltar o bom senso da distribuidora de colocar legendas na cor preta para que ninguém precise ficar adivinhando as palavras na tela, como acontece em muitos casos em filmes com esse tipo de fotografia.

Perturbador ver na tela o que aconteceria com lugares em que você transita diariamente caso estivéssemos perto do fim do mundo. É essa a sensação que o filme transmite. Perturbador e desconcertante também é imaginar do que somos capazes, até onde podemos chegar, o que nos move afinal e o por quê de nossas escolhas. Com mais uma atuação merecedora de uma indicação à Academia de Julianne Moore – o que duvido que aconteça, uma vez que o filme é de difícil digestão – é tupiniquim demais virar às costas e críticar nosso melhor cineasta da atualidade.

Cotação (de 0 a 5): 4,5 – Iguaria fina

QUANDO VOCÊ CHEGA BEM PERTO DE UMA DIVA

Poucas atrizes no mundo conseguem ter a profundidade dela. Papéis fáceis não a seduzem. É com a intensidade de sempre que Julianne Moore encarou a dramática personagem de Ensaio Sobre a Cegueira. E é com a mesma transparência que costuma mostrar em suas entrevistas que ela encarou dezenas de jornalistas na coletiva do filme nesta segunda, em São Paulo.

Com os fotógrafos ávidos por cada um de seus gestos, disparando flashes continuamente, ela parecia adejar sobre todos nós. Mas não com aquela empáfia de diva inacessível. Não a Julianne. Ela paira sobre nós, mas pela sua essência, não por suas atitudes. Franca, divertida e absurdamente sexy, é fácil acreditar que todos eles – diretor e elenco – viraram uma família durante as filmagens.

Julianne conta que foram inúmeros os desafios para interpretar essa personagem. Sem saber de onde ela veio e nem mesmo o seu nome, o intuito era fazê-la naquele momento da sua vida, como quando você conhece alguém e passa a julgá-lo sem conhecer o seu passado. “No início da história, o que as pessoas fazem é acreditar no governo. Depois, elas esperam que apareça alguém. Só que ela (o meu personagem) não é Batman. Tampouco alguém que se transforma em herói, como Bruce Willis em seus filmes. Ela é uma pessoa comum. Não é um herói.”

Tão alva quanto a fotografia do filme, Julianne é mais do que um “anjo branco” como definiu o diretor. Se ela fosse uma cor, ela não seria menos do que um arco-irís. Intensa em seus trabalhos, radiante em carne e osso. Cinquenta minutos inesquecíveis na vida deste jornalista.

A nova do Ladytron e a entrevista do ano!

Posted in Al dente with tags , , , , on agosto 22, 2008 by claesen

O Digestão anda tão vagabundo (leia-se ando postando pouco) que saiu o segundo vídeo do Ladytron – uma das minhas bandas favoritas – e ele nem havia aparecido por aqui.

Pois então, com atraso, segue Runaway, a deliciosa quarta faixa de Velocifero.

E AGUARDEM: SEGUNDA-FEIRA MÁRCIO CLAESEN ESTARÁ NA PRÉ-ESTRÉIA DE ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA E NA COLETIVA COM FERNANDO MEIRELLES E JULIANNE MOORE – SIM, ELA!! – E POSTAREI TUDO EM BREVE!

Shortbus: Bem mais do que o filme gay do ano

Posted in A la carte with tags , , on agosto 19, 2008 by claesen

Difícil falar de Shortbus sem cair em lugares comuns. Dizer que o filme está no limiar da pornografia é um deles. Tanto que o site IMDb – a bíblia do cinema – chegou a excluí-lo de sua relação há dois anos atrás. Hoje, o filme já se encontra relacionado lá novamente.

O longa de John Cameron Mitchell pode ser tudo, menos convencional. Mitchell dirigiu apenas um filme antes deste, Hedwig and the Angry Inch (2001), um musical sobre um cantor de rock transsexual que rendeu uma das melhores trilhas do ano e alguns dos momentos mais sensíveis também.

Havia visto Shortbus na Mostra Internacional em 2006. Agora, prestes a estrear no circuito, o revi e o encanto permanece o mesmo. A primeira cena do filme localiza os personagens, através de uma maquete, em Nova York, e já deixa claro: os pudicos podem se levantar e ir embora, pois quem ficar irá embarcar numa viagem onde o sexo perpassa as relações, mas não as define. Os personagens que se cruzam estão em um ponto decisivo de suas vidas.

É num lugar chamado Shortbus – em que todas as fantasias são permitidas – que conheceremos melhor os namorados James e Jamie que, após cinco anos de relacionamento, estão em busca de um terceiro, para aplacar a dor que um deles sente; Severin, uma dominatrix que almeja muito mais do que chicotes e paddles em sua vida e Sofia, uma terapeuta sexual que ajuda os pacientes, mas não consegue se ajudar, já que nunca teve um orgasmo. É com ela e um ovo vibratório, inclusive, a cena mais hilariante do filme.

Com uma ousadia que só Pasolini se permitia e uma tristeza tão intrínseca nos personagens que lembra Fassbinder, John Cameron Mitchell merece uma carreira mais prolífica. Muito mais que um filme gay ou pornográfico, Shortbus fala de pessoas de uma maneira divertida e tocante – e sexual também. rs. Deixemos que o próprio John Cameron discorra mais sobre ele:

Cotação (de 0 a 5): 4,5 – Iguaria fina

Violência em Família: Tragédias que não emocionam

Posted in A la carte with tags , on agosto 16, 2008 by claesen

Qual o limite que separa o amor da mais pura obsessão? O cinema é pródigo em retratar famílias desajustadas ou aquelas cuja argamassa de união é o crime. Mas poucas vezes o nível de confusão psicológica dos personagens é parecido com o de Violência em Família, filme do diretor Paul Goldman, em cartaz nos cinemas.

A história gira em torno de Katrina (Emily Barclay), produto da criação de um pai permissivo. Ela tem uma filha pequena e um namorado que a idolatra, mas a única coisa que a interessa de fato na vida é o irmão. Este, por sua vez, foi condenado à prisão perpétua por degolar uma pessoa num assalto. No alto de sua insanidade, Katrina passa a planejar o assassinato do próprio pai para que consiga herdar e vender a casa e com isso ter mais recursos para a defesa do irmão.

Filmes como esse tendem a nos fazer identificar com os vilões. Não é raro nos pegarmos torcendo para eles se darem bem, porque são sedutores, inteligentes, nos despertam uma sensação de poder, de controle do próprio destino, que nem sempre temos. Um exemplo disso é um insano e envolvente Christian Bale em Psicopata Americano (2001).

Não é o caso de Violência em Família. O espectador tem um distanciamento, como se visse a cena através de um véu que o impedisse de mergulhar na história, premissa básica de qualquer ficção. Nem a abordagem no estilo documentário ajuda em uma aproximação. Um pouco menos de pretensão e mais sensibilidade não fariam mal ao diretor australiano.

Cotação (0 a 5): 2,0 – Pastel de vento

Novidade escandinava no cardápio

Posted in Al dente, Sugestão da casa with tags , on agosto 10, 2008 by claesen

Terra dos gostosões do A-Ha e dos descolados do Royksopp, a Noruega mostra que tinha mais do que Ida Maria (que você relembra aqui) para mostrar ao mundo neste ano.

Eis o pop delícia do The Micropops. A banda surgiu em 2007, acaba de gravar suas primeiras canções e assinou com uma gravadora local. Originária de Bergen – a segunda maior cidade da Noruega – o vídeo que se segue foi gravado na baía da cidade, a qual é um famoso ponto turístico de lá e conta com casas do tempo da Liga Hanseática, hoje consideradas Patrimônio da Humanidade.

Aqui, a despretensão e o som freshy-happy (como eles mesmos se definem) do Micropops com Moonlight.