Ensaio Sobre a Cegueira: O caos perturbador de Meirelles


Apesar de uma co-produção com o Japão e o Canadá, com locações em Montevidéu e Toronto e a história se passar numa cidade fictícia, Ensaio Sobre a Cegueira do diretor Fernando Meirelles é, basicamente, um filme paulistano. Os cartões postais da cidade estão todos lá: as escadarias do Theatro Municipal, o Viaduto do Chá, a Avenida Paulista, o Minhocão, a Ponte Estaiada. Segundo meu amigo Lipp Sant’angelo, uma das graças do filme é tentar adivinhar as locações – se é que dá para achar graça num filme tão tenso e sombrio.

Baseado – como todos estão cansados de saber – na obra-prima de José Saramago, o filme trata de uma misteriosa epidemia de cegueira. De repente, um a um, os habitantes de uma cidade não identificada são acometidos pela doença. Os primeiros infectados são isolados num hospital desativado. A eles, juntam-se, cada vez mais, novos casos de contágio que vão superlotando o lugar. No meio de todos, apenas uma pessoa parece imune à doença: A Mulher do Médico (Julianne Moore).

Não à toa, o adjetivo que mais se ouvia para definir o filme após sua primeira exibição no país nesta segunda era “pesado”. A famosa cena de estupro que tanto horrorizou platéias em sessões experimentais do longa foi cortada mas, segundo Fernando, estará presente na versão em DVD. Ainda assim, longe de ser palatável, Cegueira é cruel e implacável com seus personagens sem nome.

Meirelles usa bem o que ele chamou de “truques” para que o espectador se entregue à história. Imagens fora de foco, sons disassociados de imagens e principalmente o branco. Um filme absurdamente claro para falar da escuridão. Vale ressaltar o bom senso da distribuidora de colocar legendas na cor preta para que ninguém precise ficar adivinhando as palavras na tela, como acontece em muitos casos em filmes com esse tipo de fotografia.

Perturbador ver na tela o que aconteceria com lugares em que você transita diariamente caso estivéssemos perto do fim do mundo. É essa a sensação que o filme transmite. Perturbador e desconcertante também é imaginar do que somos capazes, até onde podemos chegar, o que nos move afinal e o por quê de nossas escolhas. Com mais uma atuação merecedora de uma indicação à Academia de Julianne Moore – o que duvido que aconteça, uma vez que o filme é de difícil digestão – é tupiniquim demais virar às costas e críticar nosso melhor cineasta da atualidade.

Cotação (de 0 a 5): 4,5 – Iguaria fina

QUANDO VOCÊ CHEGA BEM PERTO DE UMA DIVA

Poucas atrizes no mundo conseguem ter a profundidade dela. Papéis fáceis não a seduzem. É com a intensidade de sempre que Julianne Moore encarou a dramática personagem de Ensaio Sobre a Cegueira. E é com a mesma transparência que costuma mostrar em suas entrevistas que ela encarou dezenas de jornalistas na coletiva do filme nesta segunda, em São Paulo.

Com os fotógrafos ávidos por cada um de seus gestos, disparando flashes continuamente, ela parecia adejar sobre todos nós. Mas não com aquela empáfia de diva inacessível. Não a Julianne. Ela paira sobre nós, mas pela sua essência, não por suas atitudes. Franca, divertida e absurdamente sexy, é fácil acreditar que todos eles – diretor e elenco – viraram uma família durante as filmagens.

Julianne conta que foram inúmeros os desafios para interpretar essa personagem. Sem saber de onde ela veio e nem mesmo o seu nome, o intuito era fazê-la naquele momento da sua vida, como quando você conhece alguém e passa a julgá-lo sem conhecer o seu passado. “No início da história, o que as pessoas fazem é acreditar no governo. Depois, elas esperam que apareça alguém. Só que ela (o meu personagem) não é Batman. Tampouco alguém que se transforma em herói, como Bruce Willis em seus filmes. Ela é uma pessoa comum. Não é um herói.”

Tão alva quanto a fotografia do filme, Julianne é mais do que um “anjo branco” como definiu o diretor. Se ela fosse uma cor, ela não seria menos do que um arco-irís. Intensa em seus trabalhos, radiante em carne e osso. Cinquenta minutos inesquecíveis na vida deste jornalista.

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8 Respostas to “Ensaio Sobre a Cegueira: O caos perturbador de Meirelles”

  1. Que inveja!! Julianne Moore é realmente uma mulher fora de série. Acho inclusive que a Academia não lhe dá as honras que merece. Mas também não sei se ela se importa muito com isso.

    E também é muito bom ler um texto escrito por um jornalista em que se transpira emoção sem artificialismos. Parabéns pela coragem.

  2. Eu adoraria poder ter tido a oportunidade de entrevistar a Julianne Moore, uma das minhas atrizes favoritas. Você é um sortudo!

    Gostei muito de ler suas impressões sobre “Cegueira”. Você foi simples, mas mostrou suas sensações genuínas ao assistir ao filme. Também acho que Julianne Moore será esquecida pela Academia quando a mesma anunciar a lista de indicadas ao Oscar de Melhor Atriz.

  3. É um dos filmes que mais quero assistir. Até porque sou fã da Julianne Moore (até quando ela faz filme ruim).
    Acho bacana que “Cegueira” foi filmado nas ruas de São Paulo, como você disse, deve ser animador ficar adivinhando as locações.
    E torço para a Moore concorrer ao Oscar de atriz. Será que o filme e o diretor conseguem uma vaguinha também?

  4. Marcelo e Kamila, obrigado pelos elogios. Na verdade, eu ainda estou digerindo o filme. Não é dos mais fáceis. Hoje ouvi de outros jornalistas opiniões contrárias, dizendo que não gostaram.

    Teco, eu tb!! Até qdo ela faz filme ruim, tipo Os Esquecidos e Filhos da Esperança, que alías lá fora se falou bem dele, mas me decepcionou.

    Eu tb torço por ela e acho que o Fernando merece outra indicação sim.
    Vamos ver a receptividade que o Cegueira vai ter lá na América.

    Abs.

  5. Welton Trindade Says:

    Que sortudo. Viu a diva antes do fim do mundo. Ou seria por causa do “fim do mundo”. rs
    E quero ver o filme. Preciso ver!

  6. Assisti ao filme somente hoje. Não consegui tempo antes.
    Concordo plenamente com você: O filme é algo, é qualquer coisa.
    Um dos melhores que eu já vi.
    Na minha relação estão:
    Babel
    O Jardineiro Fiel
    Na natureza Selvagem

  7. Maria Eugênia Says:

    O nível do Oscar tem melhorado.Ainda não vi o premiado e nada me

    inspira em vê-lo.

    Esquecer “Ensaio sobre a cequeira”, esquecer Juliane Moore, esquecer

    Fernando Meireles é IMPERDOÁVEL !!!!!!!!!!………

  8. Meu professor de filosofia,recomendou que assistissemos, depois eu comento !!bjos.

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