Mostra Internacional de SP: Balanço do primeiro final de semana

Difícil fazer um post para cada filme, uma vez que lugar de cinéfilo em época de Mostra é no cinema e não em casa, na frente do computador. Bom, mas até porque pedem-me indicações todos os dias e uma vez que um dos assuntos principais do Digestão é cinema, vamos a um resumo dos primeiros dias.

A Mostra para mim começou com os irmãos Coehn. Como bem disse Pedro Butcher na Ilustrada, nenhum cineasta americano soa tão desesperançoso como eles. Mesmo Queime Depois de Ler sendo uma comédia – e provocar boas gargalhadas – não espere sair do filme leve como se tivesse visto Kate Hudson escrevendo artigos sobre relacionamentos. Não, os irmãos Coehn são sombrios até quando fazem graça.

Foi em outra comédia a minha aposta seguinte, Rebobine, Por Favor. Dirigida pelo francês Michel Gondry, de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembraças, o filme é de um nonsense sem par. Protagonizado por Jack Black, ótimo humorista, mas afetado demais neste filme, o filme parte (assim como Brilho) de uma ótima premissa, mas que se esvai no decorrer do longa. A platéia – com mais moderninhos do que o clube Glória em suas festas fashionistas – parece não ter se importado. Riu a valer com as desventuras de dois trapalhões tentando salvar uma videolocadora. Com um final catártico e lacrimoso, eu boto minha mão com unhas roídas no fogo se ele não fizer tremendo sucesso quando estrear no circuito.

Tedium, por outro lado, é o tipo de filme que dificilmente estreará. Apesar de produções iranianas serem comuns nas telas de São Paulo, um docu-drama sobre transexuais do oriente médio não é exatamente um chamariz para público. Mas posso estar enganado. É louvável a coragem de se fazer um filme como esse, mesmo que o formato deixe bastante a desejar. Mas nada foi tão decepcionante como Alvorada em Sunset. O longa americano mostra a reunião de oito diferentes duplas em quartos no mesmo hotel. Com a premissa de refletir sobre as relações numa terra de aparências como Hollywood, o filme torna-se risível: malfeito, mal-editado e mal-interpretado, ele reume-se basicamente a uma piada só para cada situação. Exceção honrosa é a dupla formada por uma lésbica quarentona e uma massagista. Com reflexões bem colocadas e tiradas no lugar certo, é uma pena elas serem apenas 1/8 do filme.

O Silêncio de Lorna confirma que a Bélgica nos deu muito mais do que as batatas fritas, Tintin e o sobrenome Claesen desse jornalista. Estou falando dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Presença constante no Festival de Cannes, a dupla mais uma vez utiliza-se de personagens marginais para tecer uma história muito bem construída. Mais sobre ele, eu escrevo quando o filme estrear (em São Paulo, isto deve acontecer em novembro).

O Mix Brasil é apenas no próximo mês, mas Aquarela levou à sala o público que costuma lotar o festival de André Fischer. O filme contém boa parte do que os gays já passaram: o primeiro beijo, a primeira transa, o momento de contar para a mãe, a surra no colégio. A embalagem do longa é cafona até dizer chega (o piano na trilha sonora e a angústia do protagonista que não consegue se ver livre dos fantasmas do passado não descem), mas há coisas pertinentes por ali.

E encerrando meu primeiro final de semana na Mostra, há Gomorra (foto). Difícil imaginar que um filme me cause tamanho impacto durante o restante do festival. Antes mesmo do título aparecer na tela, o banho de sangue já teve início e muito sangue irá jorrar ainda para falar da Camorra, poderosa e temida organização criminosa italiana que movimenta milhões de euros e esteve envolvida até na reconstrução das torres gêmeas de Nova York. Diversos personagens cruzam-se num conjunto de prédios em que não há meio termo: ou você está contra ou a favor da máfia. “É a guerra”, frase que é ouvida repetidamente, através das paredes esburacadas, tanto por quem já está no fim da vida, como por quem mal terminou de brincar e já pega em armas e repassa drogas.

Não há concessões na trama de Matteo Garrone. Não se apegue a nenhum dos personagens, pois não haverá compaixão para os mesmos. A efeciente e pontuada trilha sonora marca o ritmo de uma trama intensa, precisa e irretocável. Tire as piadas de Cidade de Deus, acrescente os melhores momentos da crítica política e social que o cinema italiano já apresentou e você terá Gomorra. Segue o trailer:

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10 Respostas to “Mostra Internacional de SP: Balanço do primeiro final de semana”

  1. Tinha lido seu texto sobre “Burn After Reading”, mas este aqui está excelente. Quero assistir “Rebobine Por Favor”, “O Silêncio de Lorna” (apesar de não ser a maior conhecedora da obra dos Irmãos Dardenne) e “Gomorra”. Acho que este filme é o grande favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Sua opinião sobre o filme é estimulante. Espero que o longa tenha, pelo menos, uma chance de estrear em minha cidade.

  2. Welton Trindade Says:

    Uau! Ótimo panorama do que rolou no festival. Ótimo ler quem sabe dosar boa descrição e ótimo senso de humor, tudo, claro, em nome de uma boa crítica.

  3. que bacana esse apnorama da mostra!
    nem sei o que ta rolando…
    ando tão na cozinha!

    me passa depois alguns filmes,márcio

    bjos
    e até!

    ps. já saiu de férias???

  4. Kamila, não sabia que Gomorra era o indicado da Itália ao prêmio de filmes estrangeiro. Hum. Isso é bacana, mas não se esqueça que o povo que vota nesta categoria não costuma gostar de violência explícita. Aliás, me bateu uma curiosidade agora de ver a lista inteira com os nomes de cada filme indicado pelos países. Vou procurar.

    Welton, é aquela coisa: só dá pra ver um pouquinho da Mostra, pois são muitos filmes e as escolhas são muito pessoais. Estou tentando dosar vendo filmes desconhecidos e alguns que eu estava muito curioso para assistir.

    Rebeca, estou em férias sim.
    Hoje vi um filme muito pertinente a você chamado Fumando Espero. Sobre fumantes e ex-fumantes famosos e médicos tentando entender o processo da dependência do cigarro. Espero que ele estreie um dia no circuito para a senhorita assistir.

    Bjos.

  5. Denis Torres Says:

    Olá camarada são-paulino, já vi Burn After Reading na sexta e gostei que o bom humor negro de Fargo está de volta. Pretendo assister este Gomorra no Pompéia, pois fiquei empolgado com o trailer. Amanhã se conseguir um tempo vou ver se dou um pulo na FAAP para ver o Win Wenders ao vivo. Abs.

  6. Claesen, mas com a mudança de regras da Academia para a categoria, é bem capaz de “Gomorra” entrar na lista de finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

  7. Parabéns pelo panorama. Eu estou ainda bastante chateado com o fato de que a Mostra não faz nenhuma questão de ter o público eventual (que assiste algumas – poucas – sessões e não tem tempo para paoctes de ingresso ou permanentes). Eu acho uma pena que agora seja assim. Mas não vou te encher mais com minha revolta.

    Abraço.

  8. Nossa, absolutamente de acordo com a opiniao do Marcelo.
    E o sr esta cada vez melhor naquilo que se propõe a fazer, hein. Dá vontade de sair correndo e ir ver Gomorra, coisa que vou tentar fazer no saábado. E depois preciso falar dele no Blog, pois achei um cartaz lindo do filme. ahahah

    té!

  9. Denis,
    Conseguiu ver o Wim Wnders na Faap? Como estava o tio?

    Kamila,
    Pois é, mas vc acha que essas mudanças serão significativas? Eu torço pra que sejam, pois essa categoria do Oscar é tão absurda com suas regras que em quase todos os anos os melhores filmes estrangeiros ficam de fora.

    Marcelo,
    A Mostra realmente está difícil para quem quer ver sessões avulsas. O Cakoff deveria pensar em alguma solução para isso, pois desse jeito, somente quem se programa com mta antecedência e compra um pacote ou permanente consegue ver tudo o que quer. Eu não posso reclamar, me programei neste ano, mas há de se pensar em algo.

    Heitor,
    Gomorra é daqueles filmes em que vc se emociona ao ver os italianos voltando a fazer cinema tão bem. Um país que nos deu Fellini, Antonioni, Rosselini, Pasolini, Ettore Scola, entre outros, não pode ficar em segundo plano na sétima arte nunca! E Matteo Garrone tem força e talento pra entrar no panteão dos grandes cineastas. Vamos ver qual será sua trajetória.
    E quero ver esse cartaz!

  10. Denis Torres Says:

    Marcio, a decadência chega a todos, não tem jeito, rsrs.

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