Mais da Mostra: O retorno de Guy Ritchie (Rocknrolla), a decepção chilena (La Buena Vida), os inferninhos de São Paulo (Se Nada Mais Der Certo) e a realidade delirante e deslumbrante de Kaufman (Synédoque, Nova York)

Tentar acompanhar as coisas mais interessantes da Mostra de SP é difícil. Uma aposta errada aqui, outro filme que sabe que vai estrear (mas não tem paciência para esperar) ali e chegamos ao final da primeira semana. Entre a perversão violenta da filha de David Lynch (Sob Controle), um perfil dos atores que se fantasiam na calçada da fama em troca de gorjetas (Confissões de Super-Heróis) e uma das constatações mais atuais sobre as relações de pais e filhos (Hanami), separei alguns títulos para falar um pouco.

SE NADA MAIS DER CERTO

O diretor José Eduardo Belmonte já havia flertado com as drogas e o discurso político-social em seu longa de estréia, o difícil e interessantíssimo A Concepção (2005). Agora, o diretor brasiliense traz as suas lentes do Planalto Central para o underground paulistano em Se Nada Mais Der Certo.

Com câmera na mão e cores estouradas nas imagens em que seus personagens circulam pelas ruas e pelos inferninhos, algumas cenas são desconfortáveis, lembrando Irreversível (2002), de Gaspar Noé. Mais à frente, você consegue entender que os personagens estão tão perdidos nesta megalópole que não é necessário definir tanto os lugares ou as imagens. Leo (Cauã Reymond) é um jornalista que veio de Brasília e vê tudo dar errado em São Paulo. Nada pode ficar pior do que está, certo? Errado. Para Leo sempre fica um pouco pior. Em sua vida, pelas boates da Rua Augusta ou em seu apartamento na Avenida Nove de Julho, cruzam-se Marcin (Caroline Abras, numa atuação excepcional), um traficante que ainda não se definiu de gênero; Angela (Luiza Mariani), uma anoréxica com um filho pequeno que ainda não descobriu o que fazer da vida para ganhar dinheiro e Wilson (João Miguel), um taxista sofrendo de depressão profunda. Todos com muitas contas pra pagar. Envolvem-se num plano que pode ser a salvação de todos, mas será que alguém consegue sobreviver na asfixiante e devoradora São Paulo? Alternam-se diálogos bem construídos com algumas cenas mal preparadas, mas a sequência do assalto usando máscaras de FHC e Sarney com debate entre Lula e Alkmin rolando pela tevê é, no mínimo, muito bem idealizada. A vitória no Festival do Rio parece um pouco exagerada, mas Belmonte tem muita coisa a discutir e vale a pena prestar atenção nele.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

LA BUENA VIDA

Santiago, capital do Chile, é bastante explorada em suas ruas no longa do diretor Andrés Wood, La Buena Vida. Em seu filme anterior, Machuca (2004), considerado excelente por boa parte das pessoas, para mim faltava alguma coisa. Era como se você fosse apresentado a uma elaborada e emocionante história, mas não conseguisse se envolver com a mesma. De qualquer forma, haviam tantas qualidades que não poderia deixar de considerá-lo muito bom (mas não excelente). Agora, o problema piora em La Buena Vida.

Vários personagens têm suas vidas (mal) entrelaçadas na capital chilena. Ao som de uma trilha que, desnecessariamente, sublinha e coloca em negrito os sentimentos dos personagens, conhecemos Teresa, uma psicóloga que fala de sexo seguro para as prostitutas, mas não consegue se relacionar com a própria filha, que engravida aos 15 anos; Edmundo, um cabeleireiro sufocado pela mãe, que não consegue se envolver com ninguém e Mário, um clarinestista obcecado com a idéia de entrar para a Filarmônica. As interpretações, em sua maioria, são distantes e não criam nenhuma empatia – a do músico lembra Ben Whishaw, o insípido protagonista de O Perfume (2006). Com o propósito de discutir os anseios dos personagens, o filme fica bastante à margem disso e você, como um tapa na cara que um dos personagens recebe em certo momento e nem se apercebe do tamanho do ato, sai ileso.

Cotação (de 0 a 5): 2,5

ROCKNROLLA

É irônico lembrar que Guy Ritchie, um cineasta promissor, afundou-se profissionalmente logo após casar-se com Madonna e, justamente uma semana depois do fim da relação de quase oito anos, ele volte à boa forma. Sim, Rocknrolla tem todos os ingredientes dos filmes de Ritchie. Anos depois, o cineasta retorna com suas doses certas de sarcasmo, violência, drogas e submundo londrino.

Com uma narração em off, somos apresentados aos diversos personagens que só têm um único interesse: dinheiro. Mr. One Two (o bonitão Gerard Butler, de 300) e sua Quadrilha Selvagem tentarão passar a perna no poderoso Lenny (Tom Wilkinson, sempre ótimo) que está envolvido com a máfia russa e possui um enteado junkie e rock star que finge estar morto para vender mais discos. A contadora Stella (a linda Thandie Newton, de Crash) é peça chave no esquema fraudulento. Interessante notar que cenas calmas estão intercaladas com as cenas violentas, quando estas aparecem, produzindo um efeito dilacerantemente bom. Ao som de Rock’n’roll Queen, dos Subways, está uma das mais eletrizantes delas. No fim, Rocknrolla é mais do mesmo de Guy Ritchie: tudo o que ele sabe fazer de melhor está de volta. E para quem leu a recente biografia de Madonna, de Lucy O’Brien, e estava torcendo o nariz para Ritchie por conta de sua homofobia latente, um aviso: irão se surpreender.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

SINÉDOQUE, NOVA YORK

Foi com pé atrás que adentrei à sessão de Sinédoque, Nova York. Pelos corredores da Mostra falava-se da linguagem difícil do filme, do nonsense, de você se sentir burro ou idiota vendo um filme que não parece ter sentido. Se Charlie Kaufman não fosse um roteirista – e agora cineasta – ele seria psquiatra. A pergunta que fica após o seu filme é: ou ele tem uma mente anos-luz à frente da humanindade (e daí explicaria-se o seu reconhecimento como criativo e genial roteirista) ou ele tem uma compreensão mais profunda e elaborada do ser humano do que a média (daí minha referência à psquiatria).

Depois de assinar roteiros premiados (Quero Ser John Malcovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, entre outros), Kaufman estréia na direção com uma história escrita por ele e, na minha opinião, a sua obra-prima. Caden (Philip Seymour Hoffman) é um dramaturgo hipocondríaco que vê, atordoado, as mulheres passarem pela sua vida. Com a ex-mulher, Adele, ele será marcado pelo fracasso; com Hazel perseguirá um amor platônico e com Ellen descobrirá o que, afinal, estamos fazendo aqui e qual nossa relação com o resto do mundo. Reencenando, nos ensaios de um espetáculo, sua própria vida, o jogo começa e a viagem de Caden é perturbadora.

No final do filme, os mesmos comentários dizendo tratar-se de algo hermético, cansativo ou que “a segunda metade do filme poderia ser engraçada como a primeira”. Não é pretensão minha dizer que Charlie Kaufman não é pra todos. Dê uma olhada no time de feras (femininas) que compõem o elenco dessa jornada e prepare-se para uma viagem desconcertante e arrebatadora:

Cotação (de 0 a 5); 5,0

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3 Respostas to “Mais da Mostra: O retorno de Guy Ritchie (Rocknrolla), a decepção chilena (La Buena Vida), os inferninhos de São Paulo (Se Nada Mais Der Certo) e a realidade delirante e deslumbrante de Kaufman (Synédoque, Nova York)”

  1. Denis Torres Says:

    Sinédoque é uma espócie de 8 e meio americano, porém muito mais esquizofrênico!

  2. Claesen, dos filmes que você citou o que eu mais quero assistir é “Rock n’ Rolla”. Parece que as reações ao filme do Charlie Kaufman têm sido contraditórias, do tipo ame ou odeie. E fique surpresa com seu comentário sobre “Se Nada Mais Der Certo”.

  3. Denis, eu vou ficar digerindo Sinédoque por muito tempo ainda. Mto mto louco e mto bom esse filme.

    Kamila, eu acho que Se Nada Mais… é o tipo de filme que muita gente reclama que não tem no Brasil, mas tem. Qdo falam que nossos filmes só se referem às favelas, morros e gente feia (o que não é verdade), deveriam procurar mais e assistir então a filmes brasileirosque exploram outras temáticas como Não por Acaso ou Chega de Saudade, por exemplo.

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