Documentários da Mostra: Madonna, Patti Smith, Mukhtaran Mai e os fantasiados da calçada da fama

Confissões de Super-Heróis

O documentário de Matt Ogens traça um perfil de quatro super-heróis da Hollywood Boulevard. Irregular e por vezes condescendente demais com os retratados, o longa, porém, é original na escolha do tema: acompanha de perto o dia-a-dia de pessoas que se fantasiam e deixam-se fotografar por turistas em troca de gorjetas.

Se a Mulher-Maravilha e o Incrível Hulk são atores ainda em busca de uma chance, o Batman (e também cover de George Clooney) tem um passado duvidoso e o Super-Homem é um caso à parte. Belíssimo caso para um psiquiatra (aliás, ele namora uma psicóloga) o ator passa quase o dia todo travestido de herói, tendo uma obsessão desenfreada pelo personagem e chegando a se casar fantasiado. Infelizmente, o filme não se interessa em identificar a complexidade do personagem que tem em mãos, nos deixando com as complicações que eles sofrem com a polícia e a revolta dos mesmos quando a gorjeta não vem.

Cotação (de 0 a 5): 3,0

Shame

A apresentação acadêmica de Mohammed Ali Navqui para esta co-produção dos Estados Unidos com o Paquistão não a deixa menos impactante. O documentário fala sobre Mukhtaran Mai, uma mulher num vilarejo paquistanês que, condenada por um conselho dos homens do local, é estuprada diversas vezes à vista de todos.  Mukhtaran, em vez de se calar, procura ajuda. Fará dessa tragédia em sua vida, uma luta não apenas por justiça, mas por um mundo melhor para os seus.

Não à toa, a platéia feminina foi às lágrimas assistindo a um dos mais bem acabados exemplos de ser humano. O pai, no final do filme, diz não saber o que fez para ter recebido uma filha tão excepcional de presente. Não sem razão: quisera todos nós tivéssemos um pouco da coragem, determinação e nobreza de Mukhtaran Mai.

Cotação (de 0 a 5): 4,5

Eu Sou Porque Nós Somos

O documentário é dirigido por Nathan Rissman, mas é a voz e as idéias de Madonna que conduzem a narrativa do mesmo. A cantora viaja até a o “continente negro” e nos apresenta o Malaui, pequeno país com um impressionante número: 1 milhão de crianças órfãs.

Sem perder o foco nas crianças e passando rapidamente por David – o filho que Madonna adotou por lá – o filme mostra a realidade desumana desse lugar esquecido pelo planeta e consegue tecer algumas soluções. Se em alguns momentos apela para um sentimentalismo desconcertante – chegando a mostrar crianças em caixões – no todo, o filme cumpre sua função: é didático, sem ser enfadonho e pragmático, como sua idealizadora.  A trilha, assinada pelo seu amigo e colaborador, Patrick Leonard, é eficiente e a explicação do título é algo que todos deveríamos guardar para sempre.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

Patti Smith – Sonho de Vida

Patti Smith demorou mais de dez anos para concluir essa espécie de biografia em vídeo assinada por Steven Sebring.

Apesar de nos abrir a porta da casa de seus pais, mostrar-nos seus filhos, seu vestido favorito quando criança e nos convidar ao seu camarim (em certo momento você conhece até a mãe do Michael Stipe), o filme nos apresenta uma Patti bastante contemplativa, que ora visita o túmulo de seus poetas favoritos, ora elocubra sobre a morte prematura do irmão. Há boas performances da cantora, mas para uma Patti Smith muito mais visceral e contraditória, sugiro a leitura da biografia de Robert Mapplethorpe,  de Patricia Morrisroe, famoso e controverso fotógrafo que morreu de aids no final dos anos 80 e com quem Patti dividiu por dez anos a cama, as angústias, as bad trips, a inveja corrosiva e a obstinação quase destrutiva que ambos tinham pelo sucesso.

Aqui, no Digestão, você fica com o seu single de maior sucesso na parada de singles da Billboard e que não aparece no longa. Mesmo manjadíssima, uma das canções de amor mais belas e intensas já escritas: Because the Night.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

Anúncios

3 Respostas to “Documentários da Mostra: Madonna, Patti Smith, Mukhtaran Mai e os fantasiados da calçada da fama”

  1. Welton Trindade Says:

    O desafio que faço é: tentem assistir I am because we are e não chorar. Vai lá, tente!

  2. Bom, adorei a premissa de “Confissões de Super-Heróis” e tenho curiosidade em ver o documentário da Madonna.

    Bom final de semana!

  3. Olá, Marcio!

    So agora, depois de um merecido descanso pós-mostra, que to tendo tempo de agradecer a visita e seu comentario la no meu blog, e conhecer o seu.

    Pelo visto, voce viu melhores docs do que eu. O único que vi e que realmente vale a pena indicar foi A Vida Moderna, do Depardon. Filme muito bonito, carinhoso e engraçado sobre a vida de camponeses no interior da França, tentando se adaptar aos novos tempos. De resto, vi tanta porcaria que é melhor nem lembrar.

    Agora, inveja mesmo fiquei quando vc disse que entrevistou a Julianne Moore. Ai, ai…

    Vou continuar lendo seus posts da Mostra agora. Parabens pelos textos!

    Abraços!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: