Arquivo para novembro, 2008

Feliz Natal: A celebração tem gosto amargo

Posted in A la carte with tags , , on novembro 25, 2008 by claesen

feliznatal

Não me pareceu uma tarefa fácil resenhar Feliz Natal, estréia na direção do ator Selton Mello. O longa assemelha-se àquelas equações matemáticas em que um lado contrabalanceia o outro: tem tantas qualidades quanto defeitos.

A história que o mineiro Selton escolheu para contar parece simples. Caio (Leonardo Medeiros, que protagoniza seu terceiro longa só neste ano) volta à cidade para rever a família e os amigos na noite de natal. Sua mãe, Mércia (Darlene Glória, magnífica), mistura tantos remédios com álcool que mal consegue separar realidade de delírio e vaga pela casa dizendo verdades num misto de frustração e um êxtase felliniano; o pai, Miguel (Lúcio Mario), preocupa-se em satisfazer sua nova mulher, décadas mais nova, e o irmão Theo (Paulo Guarnieri, num belo retorno às telas) equilibra-se entre a vaidade do pai, a loucura da mãe e a insatisfação da esposa Fabiana (Graziella Moretto). Todos imensamente infelizes e frustrados.

Com um ótimo domínio da câmera, o diretor vai explorando esse universo onde tudo está prestes a ruir e um fato no passado de Caio, e que o fez afastar-se de todos, ainda está distante de ser apaziguado.

Apesar de um elenco bem escolhido e com estilo de sobra, a montagem atrapalha. Com tempos mortos demais, por vezes arrastado, o filme torna-se quase inacessível à boa parte do público. A trilha, muito simples, de início passa a sensação certa de desolação e frustração dos personagens, mas Feliz Natal não é Réquiem para um Sonho (para citar um exemplo desta década) em que uma trilha repetida à exaustão atinge seu auge no final. No longa de Selton, a música torna-se cansativa e sufocante. Tivesse livrado-se dela, a la irmãos Dardenne, talvez produzisse um efeito mais seco e devastador.

A cena tão polêmica da nudez de Graziella Moretto, que teria provocado um discurso inflamado do namorado Pedro Cardoso, não parece nada descabida.  Delicada, de forma alguma gratuita. Aliás, arrisco a dizer que sem a tão famosa cena o seu personagem seria mal-compreendido.

Num ano em que tantos atores resolveram arriscar-se a contar histórias do outro lado da câmera, a comparação com o longa de Matheus Nachtergaele, A Festa da Menina Morta (também irregular, porém muito bem-vindo), é inerente. Equacionando erros e acertos, Feliz Natal é uma bela e promissora estréia.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

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CatPeople: Não é um Interpol, mas vale um play

Posted in Al dente with tags , , on novembro 23, 2008 by claesen

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Enquanto o site novo não fica pronto e o Digestão mal tem sido atualizado, a categoria música é a que mais sofre por aqui. Depois de algum tempo, voltamos a falar sobre algumas novas bandas.

Hoje, temos o CatPeople (não confundir com a Cat Power), que não é exatamente algo novo. Em seu segundo álbum, What’s The Time Mr Wolf?, a banda de Barcelona bebe no new wave e também no pós-punk do Joy Division e segue a linha Interpol-Editors-She Wants Revenge. Já tocaram para mais de 20 mil pessoas ao lado do Pet Shop Boys (que bem poderiam passar pelo Brasil já que os anos 80 têm baixado em peso por aqui).

Eis o primeiro single do álbum, Sister.

Vicky Cristina Barcelona e A Duquesa: Threesomes através dos séculos

Posted in A la carte with tags , , , , , , on novembro 21, 2008 by claesen

VICKY CRISTINA BARCELONA

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Todos já sabem que Vicky Cristina Barcelona é o quarto filme de Woody Allen fora dos Estados Unidos e o seu primeiro na Espanha. Também já comentou-se muito sobre o fato de que Woody não dissimula seu olhar turístico sobre Barcelona, o beijo de Scarlett Johansson e Penélope Cruz e a possível indicação ao Oscar desta última. Excetuando tudo isso, o que resta a falar? Pouca coisa.

Se em Manhattan os seus personagens apresentavam várias e ricas camadas de complexidade (afinal, Woody sempre quis ser Bergman) e seus caracteres muitas vezes eram de uma engenhosidade saborosa, em Barcelona tudo tem o mesmo tom e os estereótipos dominam o ensolarado longa (aqui, ensolarado, infelizmente, é apenas no sentido denotativo da palavra mesmo).

Cristina (Scarlett em seu terceiro filme com o diretor) é tão charmosa quanto um maço de brócolis. E não há densidade alguma na personagem. Ela é apenas uma garota que ainda não se encontrou. Juan Antonio (Javier Bardem) e Maria Elena (Penélope) são pintores espanhóis viscerais, autênticos, calientes. Mais lugar-comum impossível. A única personagem que recebe pinceladas menos óbvias é Vicky (Rebecca Hall), que forma com Cristina a dupla americana que irá passar um verão na terra de Gaudi e envolver-se-á com o casal local citado acima.

As interpretações não se sobressaem (Scarlett está apagadíssima) e nem mesmo a comentada perfomance de Penélope merece destaque. Ela está bem, mas nada que valha uma indicação à academia. No entanto, a julgar pelo histórico que Allen tem de conseguir inúmeras indicações e prêmios para suas atrizes coadjuvantes (vide Dianne Wiest, Mariel Hemingway, Mira Sorvino, Judy Davis, entre outras) e com um boca-a-boca bem favorável, não me espantarei se vir Penélope nas premiações deste ano.

Clichês demais, roteiro de menos, fica uma frase dita por Scarlett e que traduz seu personagem, “não sei o que quero, mas sei o que não quero”. Eu também. E não é esse Woody que quero.

Cotação (de 0 a 5): 2,5

A DUQUESA

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Se em Vicky Cristina Barcelona o threesome se consome e é pleno no pouco tempo em que dura, em A Duquesa é o inverso: há uma relação a três que não satisfaz todos os integrantes e ele persiste por muito, muito tempo.

Baseado no romance de Amanda Foreman, o longa do britânico Saul Dibb, conta a história de Georgiana Spencer, a Duquesa de Devonshire. A duquesa, que realmente existiu, era uma daquelas moças educadas para agradar.  Conseguir um bom casamento e dar um filho homem ao marido resumia tudo o que uma mulher podia almejar; ai de quem não se contentasse com isso. E Georgiana ousou ser insatisfeita.

Demora-se um tempo considerável até compartilharmos com a moça o seu drama e o karma a que está inexoravelmente atrelada. Durante parte do filme, direção e atores nos distanciam de tal forma, que apenas contemplamos mais uma história de mulheres muito bem adornadas por fora, mas secas e pobres por dentro. No entanto, a certa altura do longa, a montagem e a trilha ditam um ritmo encorpado e as intepretações transformam-se. O que eram frívolos suspiros de impassividade da duquesa (Keira Knightley) torna-se uma atuação tão desafiadora quanto o personagem e o que era apenas uma interpretação correta de um ser desagradável como o duque (Ralph Fiennes) passa a ser uma brilhante perfomance de um personagem que se mostra em pequenos detalhes. Não à toa, ambos, Keira e Ralph, estão cotados ao Oscar deste ano. Não imagine a categoria de melhor figurino sem A Duquesa entre os indicados. Eles são impecáveis, em particular os vestidos e perucas de Georgiana, que era referência de moda em sua época.

Se irregular em sua abordagem, A Duquesa é competente ao mostrar que, no fundo, a nobreza não mudou em nada.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

Mostra de SP: Balanço e curiosidades da 32ª edição

Posted in Buffet variado with tags on novembro 5, 2008 by claesen

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Quarenta filmes, duas credenciais, uma pequena inflamação na garganta (devido ao ar-condicionado) e um dinheiro considerável gasto em donuts, cafés e chocolates entre uma sessão e outra, chegou ao fim a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A repescagem vai até a próxima quinta-feira, mas dá para fazer um balanço do que aconteceu nessas quase três semanas de Mostra.

Surpresa ter visto fora da premiação o tão bem comentado pelo corredores filme cazaque Tulpan. Assim como o alemão, O Estranho em Mim, do qual pouco se falou e acabou vencendo o prêmio do júri. O comentário geral é de que não foi um ano de grandes filmes, de muita coisa que será retida na retina para sempre. Mas, se faltaram filmes inesquecíveis, diversas boas produções apareceram, seja do meio alternativo americano, dos tradicionais redutos europeus ou de países mais distantes. Infelizmente, para quem não frequentou, fica a triste notícia: muito do que se viu jamais irá estrear nos cinemas. Hoje em dia, até filmes de diretores premiados e conhecidos não encontram espaço no circuito (alguém saberia dizer quando Lust, Caution do Ang Lee ou Sonhando Acordado do Michel Gondry, ambos presentes na Mostra do ano passado, por exemplo, irão estrear?), o que dirá, então, de filmes de países como Suiça, Bolívia, Índia ou Sri Lanka?

É necessário parabenizar a excelente organização com os já famosos atrasos e cancelamentos das sessões reduzidos ao mínimo possível neste ano e ao bom atendimento de todos os profissionais que trabalharam no evento. A Mostra volta só em 2009, mas ainda este mês São Paulo recebe um braço do mineiro Festival Indie, o Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual e o Festival do Cinema Francês. Cinfélios, recuperem-se rápido porque há mais coisas interessantes chegando.

DUAS ATITUDES BIZARRAS QUE COMBINARAM MUITO COM OS FILMES QUE ESTAVAM SENDO APRESENTADOS:

– Na sessão lotada do violentíssimo Gomorra, uma espectadora, inconformada com o falatório de dois rapazes – que estavam sentados bem à minha frente -, levantou-se e despejou parte do conteúdo de uma garrafa de água na cabeça de um deles e voltou ao seu lugar. O cara imediatamente levantou-se, pegou-a pelos braços enfurecido e começou a sacudí-la. A turma do deixa-disso entrou em ação e um minuto depois o cinema estava calmamente assistindo à violência – agora somente a dos italianos da tela.

– Numa sessão vespertina do moderno Se Nada Mais Der Certo, depois de uma hora de exibição, o filme começou a passar de trás para frente e de ponta-cabeça. Sim, as duas coisas ao mesmo tempo! Como estávamos vendo um filme de montagem acelerada, todos pensamos que se tratava da “proposta do diretor”. Até que quinze minutos depois, um funcionário da Mostra aparece, pára o filme e acende as luzes pedindo desculpas. A platéia inteira se olhou e caiu na gargalhada, já que pensávamos que se tratava de uma proposta inovadora e não passou pela cabeça de ninguém reclamar da projeção! rsrs

Até a próxima!