Archive for the A la carte Category

Feliz Natal: A celebração tem gosto amargo

Posted in A la carte with tags , , on novembro 25, 2008 by claesen

feliznatal

Não me pareceu uma tarefa fácil resenhar Feliz Natal, estréia na direção do ator Selton Mello. O longa assemelha-se àquelas equações matemáticas em que um lado contrabalanceia o outro: tem tantas qualidades quanto defeitos.

A história que o mineiro Selton escolheu para contar parece simples. Caio (Leonardo Medeiros, que protagoniza seu terceiro longa só neste ano) volta à cidade para rever a família e os amigos na noite de natal. Sua mãe, Mércia (Darlene Glória, magnífica), mistura tantos remédios com álcool que mal consegue separar realidade de delírio e vaga pela casa dizendo verdades num misto de frustração e um êxtase felliniano; o pai, Miguel (Lúcio Mario), preocupa-se em satisfazer sua nova mulher, décadas mais nova, e o irmão Theo (Paulo Guarnieri, num belo retorno às telas) equilibra-se entre a vaidade do pai, a loucura da mãe e a insatisfação da esposa Fabiana (Graziella Moretto). Todos imensamente infelizes e frustrados.

Com um ótimo domínio da câmera, o diretor vai explorando esse universo onde tudo está prestes a ruir e um fato no passado de Caio, e que o fez afastar-se de todos, ainda está distante de ser apaziguado.

Apesar de um elenco bem escolhido e com estilo de sobra, a montagem atrapalha. Com tempos mortos demais, por vezes arrastado, o filme torna-se quase inacessível à boa parte do público. A trilha, muito simples, de início passa a sensação certa de desolação e frustração dos personagens, mas Feliz Natal não é Réquiem para um Sonho (para citar um exemplo desta década) em que uma trilha repetida à exaustão atinge seu auge no final. No longa de Selton, a música torna-se cansativa e sufocante. Tivesse livrado-se dela, a la irmãos Dardenne, talvez produzisse um efeito mais seco e devastador.

A cena tão polêmica da nudez de Graziella Moretto, que teria provocado um discurso inflamado do namorado Pedro Cardoso, não parece nada descabida.  Delicada, de forma alguma gratuita. Aliás, arrisco a dizer que sem a tão famosa cena o seu personagem seria mal-compreendido.

Num ano em que tantos atores resolveram arriscar-se a contar histórias do outro lado da câmera, a comparação com o longa de Matheus Nachtergaele, A Festa da Menina Morta (também irregular, porém muito bem-vindo), é inerente. Equacionando erros e acertos, Feliz Natal é uma bela e promissora estréia.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

Vicky Cristina Barcelona e A Duquesa: Threesomes através dos séculos

Posted in A la carte with tags , , , , , , on novembro 21, 2008 by claesen

VICKY CRISTINA BARCELONA

 vickycristinabarcelona

Todos já sabem que Vicky Cristina Barcelona é o quarto filme de Woody Allen fora dos Estados Unidos e o seu primeiro na Espanha. Também já comentou-se muito sobre o fato de que Woody não dissimula seu olhar turístico sobre Barcelona, o beijo de Scarlett Johansson e Penélope Cruz e a possível indicação ao Oscar desta última. Excetuando tudo isso, o que resta a falar? Pouca coisa.

Se em Manhattan os seus personagens apresentavam várias e ricas camadas de complexidade (afinal, Woody sempre quis ser Bergman) e seus caracteres muitas vezes eram de uma engenhosidade saborosa, em Barcelona tudo tem o mesmo tom e os estereótipos dominam o ensolarado longa (aqui, ensolarado, infelizmente, é apenas no sentido denotativo da palavra mesmo).

Cristina (Scarlett em seu terceiro filme com o diretor) é tão charmosa quanto um maço de brócolis. E não há densidade alguma na personagem. Ela é apenas uma garota que ainda não se encontrou. Juan Antonio (Javier Bardem) e Maria Elena (Penélope) são pintores espanhóis viscerais, autênticos, calientes. Mais lugar-comum impossível. A única personagem que recebe pinceladas menos óbvias é Vicky (Rebecca Hall), que forma com Cristina a dupla americana que irá passar um verão na terra de Gaudi e envolver-se-á com o casal local citado acima.

As interpretações não se sobressaem (Scarlett está apagadíssima) e nem mesmo a comentada perfomance de Penélope merece destaque. Ela está bem, mas nada que valha uma indicação à academia. No entanto, a julgar pelo histórico que Allen tem de conseguir inúmeras indicações e prêmios para suas atrizes coadjuvantes (vide Dianne Wiest, Mariel Hemingway, Mira Sorvino, Judy Davis, entre outras) e com um boca-a-boca bem favorável, não me espantarei se vir Penélope nas premiações deste ano.

Clichês demais, roteiro de menos, fica uma frase dita por Scarlett e que traduz seu personagem, “não sei o que quero, mas sei o que não quero”. Eu também. E não é esse Woody que quero.

Cotação (de 0 a 5): 2,5

A DUQUESA

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Se em Vicky Cristina Barcelona o threesome se consome e é pleno no pouco tempo em que dura, em A Duquesa é o inverso: há uma relação a três que não satisfaz todos os integrantes e ele persiste por muito, muito tempo.

Baseado no romance de Amanda Foreman, o longa do britânico Saul Dibb, conta a história de Georgiana Spencer, a Duquesa de Devonshire. A duquesa, que realmente existiu, era uma daquelas moças educadas para agradar.  Conseguir um bom casamento e dar um filho homem ao marido resumia tudo o que uma mulher podia almejar; ai de quem não se contentasse com isso. E Georgiana ousou ser insatisfeita.

Demora-se um tempo considerável até compartilharmos com a moça o seu drama e o karma a que está inexoravelmente atrelada. Durante parte do filme, direção e atores nos distanciam de tal forma, que apenas contemplamos mais uma história de mulheres muito bem adornadas por fora, mas secas e pobres por dentro. No entanto, a certa altura do longa, a montagem e a trilha ditam um ritmo encorpado e as intepretações transformam-se. O que eram frívolos suspiros de impassividade da duquesa (Keira Knightley) torna-se uma atuação tão desafiadora quanto o personagem e o que era apenas uma interpretação correta de um ser desagradável como o duque (Ralph Fiennes) passa a ser uma brilhante perfomance de um personagem que se mostra em pequenos detalhes. Não à toa, ambos, Keira e Ralph, estão cotados ao Oscar deste ano. Não imagine a categoria de melhor figurino sem A Duquesa entre os indicados. Eles são impecáveis, em particular os vestidos e perucas de Georgiana, que era referência de moda em sua época.

Se irregular em sua abordagem, A Duquesa é competente ao mostrar que, no fundo, a nobreza não mudou em nada.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

Documentários da Mostra: Madonna, Patti Smith, Mukhtaran Mai e os fantasiados da calçada da fama

Posted in A la carte with tags , , , , , , on outubro 30, 2008 by claesen

Confissões de Super-Heróis

O documentário de Matt Ogens traça um perfil de quatro super-heróis da Hollywood Boulevard. Irregular e por vezes condescendente demais com os retratados, o longa, porém, é original na escolha do tema: acompanha de perto o dia-a-dia de pessoas que se fantasiam e deixam-se fotografar por turistas em troca de gorjetas.

Se a Mulher-Maravilha e o Incrível Hulk são atores ainda em busca de uma chance, o Batman (e também cover de George Clooney) tem um passado duvidoso e o Super-Homem é um caso à parte. Belíssimo caso para um psiquiatra (aliás, ele namora uma psicóloga) o ator passa quase o dia todo travestido de herói, tendo uma obsessão desenfreada pelo personagem e chegando a se casar fantasiado. Infelizmente, o filme não se interessa em identificar a complexidade do personagem que tem em mãos, nos deixando com as complicações que eles sofrem com a polícia e a revolta dos mesmos quando a gorjeta não vem.

Cotação (de 0 a 5): 3,0

Shame

A apresentação acadêmica de Mohammed Ali Navqui para esta co-produção dos Estados Unidos com o Paquistão não a deixa menos impactante. O documentário fala sobre Mukhtaran Mai, uma mulher num vilarejo paquistanês que, condenada por um conselho dos homens do local, é estuprada diversas vezes à vista de todos.  Mukhtaran, em vez de se calar, procura ajuda. Fará dessa tragédia em sua vida, uma luta não apenas por justiça, mas por um mundo melhor para os seus.

Não à toa, a platéia feminina foi às lágrimas assistindo a um dos mais bem acabados exemplos de ser humano. O pai, no final do filme, diz não saber o que fez para ter recebido uma filha tão excepcional de presente. Não sem razão: quisera todos nós tivéssemos um pouco da coragem, determinação e nobreza de Mukhtaran Mai.

Cotação (de 0 a 5): 4,5

Eu Sou Porque Nós Somos

O documentário é dirigido por Nathan Rissman, mas é a voz e as idéias de Madonna que conduzem a narrativa do mesmo. A cantora viaja até a o “continente negro” e nos apresenta o Malaui, pequeno país com um impressionante número: 1 milhão de crianças órfãs.

Sem perder o foco nas crianças e passando rapidamente por David – o filho que Madonna adotou por lá – o filme mostra a realidade desumana desse lugar esquecido pelo planeta e consegue tecer algumas soluções. Se em alguns momentos apela para um sentimentalismo desconcertante – chegando a mostrar crianças em caixões – no todo, o filme cumpre sua função: é didático, sem ser enfadonho e pragmático, como sua idealizadora.  A trilha, assinada pelo seu amigo e colaborador, Patrick Leonard, é eficiente e a explicação do título é algo que todos deveríamos guardar para sempre.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

Patti Smith – Sonho de Vida

Patti Smith demorou mais de dez anos para concluir essa espécie de biografia em vídeo assinada por Steven Sebring.

Apesar de nos abrir a porta da casa de seus pais, mostrar-nos seus filhos, seu vestido favorito quando criança e nos convidar ao seu camarim (em certo momento você conhece até a mãe do Michael Stipe), o filme nos apresenta uma Patti bastante contemplativa, que ora visita o túmulo de seus poetas favoritos, ora elocubra sobre a morte prematura do irmão. Há boas performances da cantora, mas para uma Patti Smith muito mais visceral e contraditória, sugiro a leitura da biografia de Robert Mapplethorpe,  de Patricia Morrisroe, famoso e controverso fotógrafo que morreu de aids no final dos anos 80 e com quem Patti dividiu por dez anos a cama, as angústias, as bad trips, a inveja corrosiva e a obstinação quase destrutiva que ambos tinham pelo sucesso.

Aqui, no Digestão, você fica com o seu single de maior sucesso na parada de singles da Billboard e que não aparece no longa. Mesmo manjadíssima, uma das canções de amor mais belas e intensas já escritas: Because the Night.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

Mais da Mostra: O retorno de Guy Ritchie (Rocknrolla), a decepção chilena (La Buena Vida), os inferninhos de São Paulo (Se Nada Mais Der Certo) e a realidade delirante e deslumbrante de Kaufman (Synédoque, Nova York)

Posted in A la carte with tags , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 24, 2008 by claesen

Tentar acompanhar as coisas mais interessantes da Mostra de SP é difícil. Uma aposta errada aqui, outro filme que sabe que vai estrear (mas não tem paciência para esperar) ali e chegamos ao final da primeira semana. Entre a perversão violenta da filha de David Lynch (Sob Controle), um perfil dos atores que se fantasiam na calçada da fama em troca de gorjetas (Confissões de Super-Heróis) e uma das constatações mais atuais sobre as relações de pais e filhos (Hanami), separei alguns títulos para falar um pouco.

SE NADA MAIS DER CERTO

O diretor José Eduardo Belmonte já havia flertado com as drogas e o discurso político-social em seu longa de estréia, o difícil e interessantíssimo A Concepção (2005). Agora, o diretor brasiliense traz as suas lentes do Planalto Central para o underground paulistano em Se Nada Mais Der Certo.

Com câmera na mão e cores estouradas nas imagens em que seus personagens circulam pelas ruas e pelos inferninhos, algumas cenas são desconfortáveis, lembrando Irreversível (2002), de Gaspar Noé. Mais à frente, você consegue entender que os personagens estão tão perdidos nesta megalópole que não é necessário definir tanto os lugares ou as imagens. Leo (Cauã Reymond) é um jornalista que veio de Brasília e vê tudo dar errado em São Paulo. Nada pode ficar pior do que está, certo? Errado. Para Leo sempre fica um pouco pior. Em sua vida, pelas boates da Rua Augusta ou em seu apartamento na Avenida Nove de Julho, cruzam-se Marcin (Caroline Abras, numa atuação excepcional), um traficante que ainda não se definiu de gênero; Angela (Luiza Mariani), uma anoréxica com um filho pequeno que ainda não descobriu o que fazer da vida para ganhar dinheiro e Wilson (João Miguel), um taxista sofrendo de depressão profunda. Todos com muitas contas pra pagar. Envolvem-se num plano que pode ser a salvação de todos, mas será que alguém consegue sobreviver na asfixiante e devoradora São Paulo? Alternam-se diálogos bem construídos com algumas cenas mal preparadas, mas a sequência do assalto usando máscaras de FHC e Sarney com debate entre Lula e Alkmin rolando pela tevê é, no mínimo, muito bem idealizada. A vitória no Festival do Rio parece um pouco exagerada, mas Belmonte tem muita coisa a discutir e vale a pena prestar atenção nele.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

LA BUENA VIDA

Santiago, capital do Chile, é bastante explorada em suas ruas no longa do diretor Andrés Wood, La Buena Vida. Em seu filme anterior, Machuca (2004), considerado excelente por boa parte das pessoas, para mim faltava alguma coisa. Era como se você fosse apresentado a uma elaborada e emocionante história, mas não conseguisse se envolver com a mesma. De qualquer forma, haviam tantas qualidades que não poderia deixar de considerá-lo muito bom (mas não excelente). Agora, o problema piora em La Buena Vida.

Vários personagens têm suas vidas (mal) entrelaçadas na capital chilena. Ao som de uma trilha que, desnecessariamente, sublinha e coloca em negrito os sentimentos dos personagens, conhecemos Teresa, uma psicóloga que fala de sexo seguro para as prostitutas, mas não consegue se relacionar com a própria filha, que engravida aos 15 anos; Edmundo, um cabeleireiro sufocado pela mãe, que não consegue se envolver com ninguém e Mário, um clarinestista obcecado com a idéia de entrar para a Filarmônica. As interpretações, em sua maioria, são distantes e não criam nenhuma empatia – a do músico lembra Ben Whishaw, o insípido protagonista de O Perfume (2006). Com o propósito de discutir os anseios dos personagens, o filme fica bastante à margem disso e você, como um tapa na cara que um dos personagens recebe em certo momento e nem se apercebe do tamanho do ato, sai ileso.

Cotação (de 0 a 5): 2,5

ROCKNROLLA

É irônico lembrar que Guy Ritchie, um cineasta promissor, afundou-se profissionalmente logo após casar-se com Madonna e, justamente uma semana depois do fim da relação de quase oito anos, ele volte à boa forma. Sim, Rocknrolla tem todos os ingredientes dos filmes de Ritchie. Anos depois, o cineasta retorna com suas doses certas de sarcasmo, violência, drogas e submundo londrino.

Com uma narração em off, somos apresentados aos diversos personagens que só têm um único interesse: dinheiro. Mr. One Two (o bonitão Gerard Butler, de 300) e sua Quadrilha Selvagem tentarão passar a perna no poderoso Lenny (Tom Wilkinson, sempre ótimo) que está envolvido com a máfia russa e possui um enteado junkie e rock star que finge estar morto para vender mais discos. A contadora Stella (a linda Thandie Newton, de Crash) é peça chave no esquema fraudulento. Interessante notar que cenas calmas estão intercaladas com as cenas violentas, quando estas aparecem, produzindo um efeito dilacerantemente bom. Ao som de Rock’n’roll Queen, dos Subways, está uma das mais eletrizantes delas. No fim, Rocknrolla é mais do mesmo de Guy Ritchie: tudo o que ele sabe fazer de melhor está de volta. E para quem leu a recente biografia de Madonna, de Lucy O’Brien, e estava torcendo o nariz para Ritchie por conta de sua homofobia latente, um aviso: irão se surpreender.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

SINÉDOQUE, NOVA YORK

Foi com pé atrás que adentrei à sessão de Sinédoque, Nova York. Pelos corredores da Mostra falava-se da linguagem difícil do filme, do nonsense, de você se sentir burro ou idiota vendo um filme que não parece ter sentido. Se Charlie Kaufman não fosse um roteirista – e agora cineasta – ele seria psquiatra. A pergunta que fica após o seu filme é: ou ele tem uma mente anos-luz à frente da humanindade (e daí explicaria-se o seu reconhecimento como criativo e genial roteirista) ou ele tem uma compreensão mais profunda e elaborada do ser humano do que a média (daí minha referência à psquiatria).

Depois de assinar roteiros premiados (Quero Ser John Malcovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, entre outros), Kaufman estréia na direção com uma história escrita por ele e, na minha opinião, a sua obra-prima. Caden (Philip Seymour Hoffman) é um dramaturgo hipocondríaco que vê, atordoado, as mulheres passarem pela sua vida. Com a ex-mulher, Adele, ele será marcado pelo fracasso; com Hazel perseguirá um amor platônico e com Ellen descobrirá o que, afinal, estamos fazendo aqui e qual nossa relação com o resto do mundo. Reencenando, nos ensaios de um espetáculo, sua própria vida, o jogo começa e a viagem de Caden é perturbadora.

No final do filme, os mesmos comentários dizendo tratar-se de algo hermético, cansativo ou que “a segunda metade do filme poderia ser engraçada como a primeira”. Não é pretensão minha dizer que Charlie Kaufman não é pra todos. Dê uma olhada no time de feras (femininas) que compõem o elenco dessa jornada e prepare-se para uma viagem desconcertante e arrebatadora:

Cotação (de 0 a 5); 5,0

Mostra de SP: Última Parada 174, Ninho Vazio e O Casamento de Rachel

Posted in A la carte with tags , , , , , , , , on outubro 22, 2008 by claesen

Entre algumas viagens à Bolívia (El Regalo de la Pachamama e A Rota do Guerreiro) e um documentário para refletir sobre o vício do cigarro (Fumando Espero) selecionei três filmes para comentar no Digestão:

ÚLTIMA PARADA 174

Bruno Barreto é um cineasta bastante irregular, mas longe de merecer as caretas que recebe quando o seu nome é pronunciado numa conversa. Vale lembrar pela milionésima vez que é dele a maior bilheteria do cinema brasileiro em todos os tempos (Dona Flor e Seus Dois Maridos, mais de 10,5 milhões de espectadores em 1976), o que não é pouca coisa. Dirigiu também A Estrela Sobe (1974) e o delicioso Romance da Empregada (1987), dando à Betty Faria dois de seus maiores personagens no cinema.

Em Última Parada 174 muito se questionou a sua escolha por uma tema já explorado com sucesso por José Padilha em Ônibus 174 (2002). A intenção de Barreto foi mostrar, em forma de ficção, um retrato de Sandro Nascimento, o sequestrador do ônibus. O diretor explora o fato da “troca de identidades”: a mãe de Sandro, Marisa, perde o filho ainda bebê para o tráfico de drogas. Anos depois, ela acredita que Sandro é o filho por quem sempre procurou. Quem conduz a narrativa são dois Sandros (ou Alês): o sobrevivente da candelária, que cai no universo das drogas quando adolescente e o outro (o verdadeiro filho de Marisa) que cresceu entre os traficantes, já escolado pela vida e irá se tornar o melhor amigo de seu xará.

Aplausos para a direção de arte, fotografia e trilha, todas muito bem elaboradas. O elenco principal (todo composto por atores desconhecidos) é, salvo pequenos deslizes, muito competente e de uma visceralidade notável – o mesmo não se pode dizer de alguns coadjuvantes com interpretações frias e mecânicas. Mas o que importa mesmo e onde Próxima Parada deixa a desejar é entender porque depois de duas, três, quatro chances que a vida lhe dá, Sandro sempre escolhe o caminho errado. Levasse o foco para dentro de Sandro em vez de se preocupar com a troca de identidades e a marginalidade ao seu redor, talvez tivesse sido o diferencial.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

NINHO VAZIO

A sinopse de Ninho Vazio do argentino Daniel Burman (O Abraço Partido, 2004) diz tratar-se de um casal que, após ver seus filhos crescerem e saírem de casa, irá perceber as rachaduras do casamento. Mas Ninho Vazio é muito menos sobre reaver o que foi perdido numa relação de décadas e mais sobre como um homem encara a sua própria existência.

A excelente Cecilia Roth (Kamchatka, Tudo Sobre Minha Mãe) é Martha, a esposa que abdicou de sua vida para cuidar do marido e dos filhos e, agora, resolve recuperar o tempo perdido voltando à universidade. Acostumada às protagonistas, Cecilia é, aqui, uma coadjuvante de luxo, pois o olhar do filme é indiscutivelmente masculino. Iremos nos aproximar mesmo é de Marchetti (Carlos Bermejo), o dramaturgo que sofre da famosa crise de meia-idade. Seus filhos se foram, a esposa está cuidando de sua própria vida e lhe vem uma necessidade de buscar algo mais em sua vida e entender as escolhas do passado. Ele começa a sentir saudade de coisas que não viveu. Ou as teria vivenciado?

A sua obsessão por uma mulher mais nova – a sua dentista – não resume e nem resolverá os seus problemas, mas é parte fundamental da busca que o personagem persiste por todo o filme. Mais do que salvar o casamento ou conquistar o seu objeto de desejo, o que ele procura é conhecer a si mesmo. A trilha alterna-se entre o jazz típico das produções de Woody Allen, nos momentos descontraídos e nonsense, a um acompanhamento onipresente e chato que mal deixa três segundos de silêncio para o personagem refletir. Não é uma obra-prima, mas Burman continua construindo uma sólida carreira cinematográfica.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

O CASAMENTO DE RACHEL

Badalado nos Estados Unidos – o filme aparece nas pré-listas do Oscar nas categorias de melhor atriz, atriz coadjuvante, diretor e até filme – O Casamento de Rachel tem um paralelo com outro filme que trata do relacionamento de duas irmãs ante a união de uma delas, Margot e o Casamento (2007, lançado diretamente em dvd no Brasil).

Mas enquanto em Margot temos uma Nicole Kidman antipática no limite do insuportável, neste filme há a iluminada presença de Anne Hathaway. E não apenas ela. Todo o elenco está em ótima forma. Apesar das poucas cenas, Debra Winger faz um belo retorno como a mãe um tanto distante das duas irmãs. A cena do confronto entre Kym (Hathaway) e Abby (Winger) é daquelas que aparecem na noite do Oscar quando e se uma das duas for indicada ao prêmio. Aliás, confrontar é o verbo favorito de Kym, deixando os ensaios do casamento de Rachel (Rosemarie DeWitt) no limiar de um desastre.

No entanto, mesmo tendo material riquíssimo nas mãos, Jonathan Demme perde longuíssimos e intermináveis minutos em momentos de celebração. Não que quisêssemos ver pancadaria full time na tela, mas com o propósito de mostrar a união e confraternização de uma família que sobrevive apesar de tudo, sobra menos tempo para explorar mais nuances da personagem e dar mais atenção a coadjuvantes importantes, como a própria Abby.

Anne Hathaway consegue seu melhor desempenho e papel no cinema até agora e faz jus aos comentários de forte candidata ao Oscar de Melhor Atriz. Já roteiro e direção são apostas altas demais para um filme que poderia ser muito mais do que é e num ano de dramas do peso de Milk, Revolutionary Road, Changeling e Slumdog Millionaire.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

Queime Depois de Ler: Personagens à beira de um ataque de nervos

Posted in A la carte with tags , , , , on outubro 17, 2008 by claesen

Osbourne Cox é um agente da CIA que perde o emprego. Ele tem um casamento burocrático com Katie “uma vaca fria e egocêntrica”, segundo a mullher de Harry. Quem é Harry? Um investigador que tem o hábito de correr vários quilômetros após transar. E ele transa muito, já que é casado com Sandy, tem caso com Katie e conhece Linda. Linda who? Linda Litzke, uma recepcionista quarentona de academia que precisa a todo custo levantar os seios e fazer outras três cirurgias para que “não apenas os loosers olhem para mim”. Palavras dela, ok? Ela encontra informações confidenciais de Cox, que partiram de Katie e entrega nas mãos de Chad, um personal trainner, que poderia ser muita coisa na vida, menos um chantagista ou um espião, papéis que irá desempenhar em conluio com Linda.

Achou confuso? Meia hora depois você já se envolveu nas tramas de Queime Depois de Ler, novo longa dos irmãos Joel e Ethan Coehn, apresentado pela primeira vez em São Paulo na Mostra Internacional de Cinema nesta sexta. Conciliar violência, uma trama de espionagem e humor negro é uma combinação bastante delicada, mas não para eles. Reverenciados pelo cult Gosto de Sangue (1984), de lá para cá alternaram-se entre comédias adultas excepcionais, como O Grande Lebowski (1998) e dramas pesados, como Onde Os Fracos Não Têm Vez (2007). Não foi difícil unir estes ingredientes e fazer de Queime Depois de Ler um filme encantadoramente sufocante.

À certa altura, o ex-agente da CIA já está andando às ruas com uma machadinha nas mãos, sua esposa Katie quase estrangulando uma criança no consultório (ela é médica), Harry continua sendo msiteriosamente seguido – com uma trágica consequência a caminho – e Linda vai parar na embaixada russa num ato desesperado para ainda tentar fazer as suas plásticas.

Brad Pitt, o avoado Chad, tem mais uma vez um bom desempenho num papel quase debilóide como em Snatch – Porcos e Diamantes (2000), George Clooney e Tilda Swinton repetem a boa dobradinha de Conduta de Risco (2007) e Frances McDormand, bem, faz jus à última mulher de diretor no mundo que estaria no elenco por ser mulher do diretor. Não é à toa ela ser venerada pelos colegas de profissão.

Trilha sonora e montagem espertas, provando que mesmo fazendo um filme apenas para diversão, os Coehn fazem bem feito.

Cotação (de 0 a 5): 4,5 – Iguaria fina

Mulheres: Vai um genérico de Sex and the City aí?

Posted in A la carte with tags , , , , , , on setembro 18, 2008 by claesen

A comparação com o “filme feminino” do verão é inevitável, mas Mulheres – O Sexo Forte, que estréia dia 26 de setembro nos cinemas, também inspirou-se muito em outro filme para meninas: O Diabo Veste Prada. Com dramas de amor, muitas grifes e mais uma pitada (ou seria um punhado?) de auto-ajuda está pronta a receita que os estúdios americanos encontraram para repercutir o filme entre o público feminino.

Não que Mulheres tenha tido êxito. A estréia nas bilheterias americanas no último fim de semana foi modesta – um 4º lugar – e com as péssimas críticas que o filme obteve por lá é provavél que figure no final do Top Ten da próxima semana. Dá para entender o por quê, mas não sem uma ponta de tristeza, pois o filme reúne um bom elenco e boas intenções. Mas de boas intenções…

O longa é baseado em um filme de 1939 de George Cukor e também na peça teatral de Claire Boothe Luce, de 1936. Uma curiosidade: tanto no filme de Cukor, quanto no da estreante Diane English, todas as cenas são preenchidas por mulheres. Sim, em nenhuma cena – seja na rua, nas lojas de departamentos ou em qualquer outro lugar – aparece um homem.

A história gira em torno de Mary Haines (Meg Ryan – estupidamente linda), uma esposa perfeita que descobre que é traída com uma perfumista da Saks, personagem da supervalorizada Eva Mendes. As amigas da primeira farão de tudo para protegê-la e vingá-la, em especial Sylvie (Annette Bening), uma editora de moda às voltas em uma crise de vendagem de sua revista e que terá sua amizade com a protagonista colocada em cheque. Completam o grupo, mas com menos destaque na trama, Edie (Debra Messing, será que um dia vou perder o vício de assistir Will & Grace na cama?) e Alex (Jada Pinkett Smith), respectivamente, a parideira e a lésbica da história.

As atuações oscilam do natural ao over, muito em decorrência do texto, que ora solta pérolas e ora resvala num lugar-boboca-sentimentalóide-dignificante-comum de dar pena. A carinha de coitada de Meg Ryan (apesar de esforçada) continua a mesma, mas Candice Bergen, como a sua mãe, rouba a cena. A atriz já havia trabalhado antes com a diretora na série de tevê Murphy Brown. English é a criadora, produtora e roteirista da série.

Sim, algumas farpas lembram o melhor de O Diabo. Há um momento em que Sylvie, dirigindo-se à filha de cinco anos de sua amiga que grita no meio da loja, diz: Querida, preste bem atenção, pois essa informação você levará para a vida toda: Ninguém odeia a Saks. No entanto, o modelo “amigas em trapalhadas” remete mesmo à S&TC e fica tão raso e sem sal quanto o original. Neste caso, o genérico nem mais barato é.

Cotação (de 0 a 5): 3,0 – Arroz com feijão