Vicky Cristina Barcelona e A Duquesa: Threesomes através dos séculos

Posted in A la carte with tags , , , , , , on novembro 21, 2008 by claesen

VICKY CRISTINA BARCELONA

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Todos já sabem que Vicky Cristina Barcelona é o quarto filme de Woody Allen fora dos Estados Unidos e o seu primeiro na Espanha. Também já comentou-se muito sobre o fato de que Woody não dissimula seu olhar turístico sobre Barcelona, o beijo de Scarlett Johansson e Penélope Cruz e a possível indicação ao Oscar desta última. Excetuando tudo isso, o que resta a falar? Pouca coisa.

Se em Manhattan os seus personagens apresentavam várias e ricas camadas de complexidade (afinal, Woody sempre quis ser Bergman) e seus caracteres muitas vezes eram de uma engenhosidade saborosa, em Barcelona tudo tem o mesmo tom e os estereótipos dominam o ensolarado longa (aqui, ensolarado, infelizmente, é apenas no sentido denotativo da palavra mesmo).

Cristina (Scarlett em seu terceiro filme com o diretor) é tão charmosa quanto um maço de brócolis. E não há densidade alguma na personagem. Ela é apenas uma garota que ainda não se encontrou. Juan Antonio (Javier Bardem) e Maria Elena (Penélope) são pintores espanhóis viscerais, autênticos, calientes. Mais lugar-comum impossível. A única personagem que recebe pinceladas menos óbvias é Vicky (Rebecca Hall), que forma com Cristina a dupla americana que irá passar um verão na terra de Gaudi e envolver-se-á com o casal local citado acima.

As interpretações não se sobressaem (Scarlett está apagadíssima) e nem mesmo a comentada perfomance de Penélope merece destaque. Ela está bem, mas nada que valha uma indicação à academia. No entanto, a julgar pelo histórico que Allen tem de conseguir inúmeras indicações e prêmios para suas atrizes coadjuvantes (vide Dianne Wiest, Mariel Hemingway, Mira Sorvino, Judy Davis, entre outras) e com um boca-a-boca bem favorável, não me espantarei se vir Penélope nas premiações deste ano.

Clichês demais, roteiro de menos, fica uma frase dita por Scarlett e que traduz seu personagem, “não sei o que quero, mas sei o que não quero”. Eu também. E não é esse Woody que quero.

Cotação (de 0 a 5): 2,5

A DUQUESA

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Se em Vicky Cristina Barcelona o threesome se consome e é pleno no pouco tempo em que dura, em A Duquesa é o inverso: há uma relação a três que não satisfaz todos os integrantes e ele persiste por muito, muito tempo.

Baseado no romance de Amanda Foreman, o longa do britânico Saul Dibb, conta a história de Georgiana Spencer, a Duquesa de Devonshire. A duquesa, que realmente existiu, era uma daquelas moças educadas para agradar.  Conseguir um bom casamento e dar um filho homem ao marido resumia tudo o que uma mulher podia almejar; ai de quem não se contentasse com isso. E Georgiana ousou ser insatisfeita.

Demora-se um tempo considerável até compartilharmos com a moça o seu drama e o karma a que está inexoravelmente atrelada. Durante parte do filme, direção e atores nos distanciam de tal forma, que apenas contemplamos mais uma história de mulheres muito bem adornadas por fora, mas secas e pobres por dentro. No entanto, a certa altura do longa, a montagem e a trilha ditam um ritmo encorpado e as intepretações transformam-se. O que eram frívolos suspiros de impassividade da duquesa (Keira Knightley) torna-se uma atuação tão desafiadora quanto o personagem e o que era apenas uma interpretação correta de um ser desagradável como o duque (Ralph Fiennes) passa a ser uma brilhante perfomance de um personagem que se mostra em pequenos detalhes. Não à toa, ambos, Keira e Ralph, estão cotados ao Oscar deste ano. Não imagine a categoria de melhor figurino sem A Duquesa entre os indicados. Eles são impecáveis, em particular os vestidos e perucas de Georgiana, que era referência de moda em sua época.

Se irregular em sua abordagem, A Duquesa é competente ao mostrar que, no fundo, a nobreza não mudou em nada.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

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Mostra de SP: Balanço e curiosidades da 32ª edição

Posted in Buffet variado with tags on novembro 5, 2008 by claesen

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Quarenta filmes, duas credenciais, uma pequena inflamação na garganta (devido ao ar-condicionado) e um dinheiro considerável gasto em donuts, cafés e chocolates entre uma sessão e outra, chegou ao fim a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A repescagem vai até a próxima quinta-feira, mas dá para fazer um balanço do que aconteceu nessas quase três semanas de Mostra.

Surpresa ter visto fora da premiação o tão bem comentado pelo corredores filme cazaque Tulpan. Assim como o alemão, O Estranho em Mim, do qual pouco se falou e acabou vencendo o prêmio do júri. O comentário geral é de que não foi um ano de grandes filmes, de muita coisa que será retida na retina para sempre. Mas, se faltaram filmes inesquecíveis, diversas boas produções apareceram, seja do meio alternativo americano, dos tradicionais redutos europeus ou de países mais distantes. Infelizmente, para quem não frequentou, fica a triste notícia: muito do que se viu jamais irá estrear nos cinemas. Hoje em dia, até filmes de diretores premiados e conhecidos não encontram espaço no circuito (alguém saberia dizer quando Lust, Caution do Ang Lee ou Sonhando Acordado do Michel Gondry, ambos presentes na Mostra do ano passado, por exemplo, irão estrear?), o que dirá, então, de filmes de países como Suiça, Bolívia, Índia ou Sri Lanka?

É necessário parabenizar a excelente organização com os já famosos atrasos e cancelamentos das sessões reduzidos ao mínimo possível neste ano e ao bom atendimento de todos os profissionais que trabalharam no evento. A Mostra volta só em 2009, mas ainda este mês São Paulo recebe um braço do mineiro Festival Indie, o Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual e o Festival do Cinema Francês. Cinfélios, recuperem-se rápido porque há mais coisas interessantes chegando.

DUAS ATITUDES BIZARRAS QUE COMBINARAM MUITO COM OS FILMES QUE ESTAVAM SENDO APRESENTADOS:

– Na sessão lotada do violentíssimo Gomorra, uma espectadora, inconformada com o falatório de dois rapazes – que estavam sentados bem à minha frente -, levantou-se e despejou parte do conteúdo de uma garrafa de água na cabeça de um deles e voltou ao seu lugar. O cara imediatamente levantou-se, pegou-a pelos braços enfurecido e começou a sacudí-la. A turma do deixa-disso entrou em ação e um minuto depois o cinema estava calmamente assistindo à violência – agora somente a dos italianos da tela.

– Numa sessão vespertina do moderno Se Nada Mais Der Certo, depois de uma hora de exibição, o filme começou a passar de trás para frente e de ponta-cabeça. Sim, as duas coisas ao mesmo tempo! Como estávamos vendo um filme de montagem acelerada, todos pensamos que se tratava da “proposta do diretor”. Até que quinze minutos depois, um funcionário da Mostra aparece, pára o filme e acende as luzes pedindo desculpas. A platéia inteira se olhou e caiu na gargalhada, já que pensávamos que se tratava de uma proposta inovadora e não passou pela cabeça de ninguém reclamar da projeção! rsrs

Até a próxima!

 

Documentários da Mostra: Madonna, Patti Smith, Mukhtaran Mai e os fantasiados da calçada da fama

Posted in A la carte with tags , , , , , , on outubro 30, 2008 by claesen

Confissões de Super-Heróis

O documentário de Matt Ogens traça um perfil de quatro super-heróis da Hollywood Boulevard. Irregular e por vezes condescendente demais com os retratados, o longa, porém, é original na escolha do tema: acompanha de perto o dia-a-dia de pessoas que se fantasiam e deixam-se fotografar por turistas em troca de gorjetas.

Se a Mulher-Maravilha e o Incrível Hulk são atores ainda em busca de uma chance, o Batman (e também cover de George Clooney) tem um passado duvidoso e o Super-Homem é um caso à parte. Belíssimo caso para um psiquiatra (aliás, ele namora uma psicóloga) o ator passa quase o dia todo travestido de herói, tendo uma obsessão desenfreada pelo personagem e chegando a se casar fantasiado. Infelizmente, o filme não se interessa em identificar a complexidade do personagem que tem em mãos, nos deixando com as complicações que eles sofrem com a polícia e a revolta dos mesmos quando a gorjeta não vem.

Cotação (de 0 a 5): 3,0

Shame

A apresentação acadêmica de Mohammed Ali Navqui para esta co-produção dos Estados Unidos com o Paquistão não a deixa menos impactante. O documentário fala sobre Mukhtaran Mai, uma mulher num vilarejo paquistanês que, condenada por um conselho dos homens do local, é estuprada diversas vezes à vista de todos.  Mukhtaran, em vez de se calar, procura ajuda. Fará dessa tragédia em sua vida, uma luta não apenas por justiça, mas por um mundo melhor para os seus.

Não à toa, a platéia feminina foi às lágrimas assistindo a um dos mais bem acabados exemplos de ser humano. O pai, no final do filme, diz não saber o que fez para ter recebido uma filha tão excepcional de presente. Não sem razão: quisera todos nós tivéssemos um pouco da coragem, determinação e nobreza de Mukhtaran Mai.

Cotação (de 0 a 5): 4,5

Eu Sou Porque Nós Somos

O documentário é dirigido por Nathan Rissman, mas é a voz e as idéias de Madonna que conduzem a narrativa do mesmo. A cantora viaja até a o “continente negro” e nos apresenta o Malaui, pequeno país com um impressionante número: 1 milhão de crianças órfãs.

Sem perder o foco nas crianças e passando rapidamente por David – o filho que Madonna adotou por lá – o filme mostra a realidade desumana desse lugar esquecido pelo planeta e consegue tecer algumas soluções. Se em alguns momentos apela para um sentimentalismo desconcertante – chegando a mostrar crianças em caixões – no todo, o filme cumpre sua função: é didático, sem ser enfadonho e pragmático, como sua idealizadora.  A trilha, assinada pelo seu amigo e colaborador, Patrick Leonard, é eficiente e a explicação do título é algo que todos deveríamos guardar para sempre.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

Patti Smith – Sonho de Vida

Patti Smith demorou mais de dez anos para concluir essa espécie de biografia em vídeo assinada por Steven Sebring.

Apesar de nos abrir a porta da casa de seus pais, mostrar-nos seus filhos, seu vestido favorito quando criança e nos convidar ao seu camarim (em certo momento você conhece até a mãe do Michael Stipe), o filme nos apresenta uma Patti bastante contemplativa, que ora visita o túmulo de seus poetas favoritos, ora elocubra sobre a morte prematura do irmão. Há boas performances da cantora, mas para uma Patti Smith muito mais visceral e contraditória, sugiro a leitura da biografia de Robert Mapplethorpe,  de Patricia Morrisroe, famoso e controverso fotógrafo que morreu de aids no final dos anos 80 e com quem Patti dividiu por dez anos a cama, as angústias, as bad trips, a inveja corrosiva e a obstinação quase destrutiva que ambos tinham pelo sucesso.

Aqui, no Digestão, você fica com o seu single de maior sucesso na parada de singles da Billboard e que não aparece no longa. Mesmo manjadíssima, uma das canções de amor mais belas e intensas já escritas: Because the Night.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

Mais da Mostra: O retorno de Guy Ritchie (Rocknrolla), a decepção chilena (La Buena Vida), os inferninhos de São Paulo (Se Nada Mais Der Certo) e a realidade delirante e deslumbrante de Kaufman (Synédoque, Nova York)

Posted in A la carte with tags , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 24, 2008 by claesen

Tentar acompanhar as coisas mais interessantes da Mostra de SP é difícil. Uma aposta errada aqui, outro filme que sabe que vai estrear (mas não tem paciência para esperar) ali e chegamos ao final da primeira semana. Entre a perversão violenta da filha de David Lynch (Sob Controle), um perfil dos atores que se fantasiam na calçada da fama em troca de gorjetas (Confissões de Super-Heróis) e uma das constatações mais atuais sobre as relações de pais e filhos (Hanami), separei alguns títulos para falar um pouco.

SE NADA MAIS DER CERTO

O diretor José Eduardo Belmonte já havia flertado com as drogas e o discurso político-social em seu longa de estréia, o difícil e interessantíssimo A Concepção (2005). Agora, o diretor brasiliense traz as suas lentes do Planalto Central para o underground paulistano em Se Nada Mais Der Certo.

Com câmera na mão e cores estouradas nas imagens em que seus personagens circulam pelas ruas e pelos inferninhos, algumas cenas são desconfortáveis, lembrando Irreversível (2002), de Gaspar Noé. Mais à frente, você consegue entender que os personagens estão tão perdidos nesta megalópole que não é necessário definir tanto os lugares ou as imagens. Leo (Cauã Reymond) é um jornalista que veio de Brasília e vê tudo dar errado em São Paulo. Nada pode ficar pior do que está, certo? Errado. Para Leo sempre fica um pouco pior. Em sua vida, pelas boates da Rua Augusta ou em seu apartamento na Avenida Nove de Julho, cruzam-se Marcin (Caroline Abras, numa atuação excepcional), um traficante que ainda não se definiu de gênero; Angela (Luiza Mariani), uma anoréxica com um filho pequeno que ainda não descobriu o que fazer da vida para ganhar dinheiro e Wilson (João Miguel), um taxista sofrendo de depressão profunda. Todos com muitas contas pra pagar. Envolvem-se num plano que pode ser a salvação de todos, mas será que alguém consegue sobreviver na asfixiante e devoradora São Paulo? Alternam-se diálogos bem construídos com algumas cenas mal preparadas, mas a sequência do assalto usando máscaras de FHC e Sarney com debate entre Lula e Alkmin rolando pela tevê é, no mínimo, muito bem idealizada. A vitória no Festival do Rio parece um pouco exagerada, mas Belmonte tem muita coisa a discutir e vale a pena prestar atenção nele.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

LA BUENA VIDA

Santiago, capital do Chile, é bastante explorada em suas ruas no longa do diretor Andrés Wood, La Buena Vida. Em seu filme anterior, Machuca (2004), considerado excelente por boa parte das pessoas, para mim faltava alguma coisa. Era como se você fosse apresentado a uma elaborada e emocionante história, mas não conseguisse se envolver com a mesma. De qualquer forma, haviam tantas qualidades que não poderia deixar de considerá-lo muito bom (mas não excelente). Agora, o problema piora em La Buena Vida.

Vários personagens têm suas vidas (mal) entrelaçadas na capital chilena. Ao som de uma trilha que, desnecessariamente, sublinha e coloca em negrito os sentimentos dos personagens, conhecemos Teresa, uma psicóloga que fala de sexo seguro para as prostitutas, mas não consegue se relacionar com a própria filha, que engravida aos 15 anos; Edmundo, um cabeleireiro sufocado pela mãe, que não consegue se envolver com ninguém e Mário, um clarinestista obcecado com a idéia de entrar para a Filarmônica. As interpretações, em sua maioria, são distantes e não criam nenhuma empatia – a do músico lembra Ben Whishaw, o insípido protagonista de O Perfume (2006). Com o propósito de discutir os anseios dos personagens, o filme fica bastante à margem disso e você, como um tapa na cara que um dos personagens recebe em certo momento e nem se apercebe do tamanho do ato, sai ileso.

Cotação (de 0 a 5): 2,5

ROCKNROLLA

É irônico lembrar que Guy Ritchie, um cineasta promissor, afundou-se profissionalmente logo após casar-se com Madonna e, justamente uma semana depois do fim da relação de quase oito anos, ele volte à boa forma. Sim, Rocknrolla tem todos os ingredientes dos filmes de Ritchie. Anos depois, o cineasta retorna com suas doses certas de sarcasmo, violência, drogas e submundo londrino.

Com uma narração em off, somos apresentados aos diversos personagens que só têm um único interesse: dinheiro. Mr. One Two (o bonitão Gerard Butler, de 300) e sua Quadrilha Selvagem tentarão passar a perna no poderoso Lenny (Tom Wilkinson, sempre ótimo) que está envolvido com a máfia russa e possui um enteado junkie e rock star que finge estar morto para vender mais discos. A contadora Stella (a linda Thandie Newton, de Crash) é peça chave no esquema fraudulento. Interessante notar que cenas calmas estão intercaladas com as cenas violentas, quando estas aparecem, produzindo um efeito dilacerantemente bom. Ao som de Rock’n’roll Queen, dos Subways, está uma das mais eletrizantes delas. No fim, Rocknrolla é mais do mesmo de Guy Ritchie: tudo o que ele sabe fazer de melhor está de volta. E para quem leu a recente biografia de Madonna, de Lucy O’Brien, e estava torcendo o nariz para Ritchie por conta de sua homofobia latente, um aviso: irão se surpreender.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

SINÉDOQUE, NOVA YORK

Foi com pé atrás que adentrei à sessão de Sinédoque, Nova York. Pelos corredores da Mostra falava-se da linguagem difícil do filme, do nonsense, de você se sentir burro ou idiota vendo um filme que não parece ter sentido. Se Charlie Kaufman não fosse um roteirista – e agora cineasta – ele seria psquiatra. A pergunta que fica após o seu filme é: ou ele tem uma mente anos-luz à frente da humanindade (e daí explicaria-se o seu reconhecimento como criativo e genial roteirista) ou ele tem uma compreensão mais profunda e elaborada do ser humano do que a média (daí minha referência à psquiatria).

Depois de assinar roteiros premiados (Quero Ser John Malcovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, entre outros), Kaufman estréia na direção com uma história escrita por ele e, na minha opinião, a sua obra-prima. Caden (Philip Seymour Hoffman) é um dramaturgo hipocondríaco que vê, atordoado, as mulheres passarem pela sua vida. Com a ex-mulher, Adele, ele será marcado pelo fracasso; com Hazel perseguirá um amor platônico e com Ellen descobrirá o que, afinal, estamos fazendo aqui e qual nossa relação com o resto do mundo. Reencenando, nos ensaios de um espetáculo, sua própria vida, o jogo começa e a viagem de Caden é perturbadora.

No final do filme, os mesmos comentários dizendo tratar-se de algo hermético, cansativo ou que “a segunda metade do filme poderia ser engraçada como a primeira”. Não é pretensão minha dizer que Charlie Kaufman não é pra todos. Dê uma olhada no time de feras (femininas) que compõem o elenco dessa jornada e prepare-se para uma viagem desconcertante e arrebatadora:

Cotação (de 0 a 5); 5,0

Mostra de SP: Última Parada 174, Ninho Vazio e O Casamento de Rachel

Posted in A la carte with tags , , , , , , , , on outubro 22, 2008 by claesen

Entre algumas viagens à Bolívia (El Regalo de la Pachamama e A Rota do Guerreiro) e um documentário para refletir sobre o vício do cigarro (Fumando Espero) selecionei três filmes para comentar no Digestão:

ÚLTIMA PARADA 174

Bruno Barreto é um cineasta bastante irregular, mas longe de merecer as caretas que recebe quando o seu nome é pronunciado numa conversa. Vale lembrar pela milionésima vez que é dele a maior bilheteria do cinema brasileiro em todos os tempos (Dona Flor e Seus Dois Maridos, mais de 10,5 milhões de espectadores em 1976), o que não é pouca coisa. Dirigiu também A Estrela Sobe (1974) e o delicioso Romance da Empregada (1987), dando à Betty Faria dois de seus maiores personagens no cinema.

Em Última Parada 174 muito se questionou a sua escolha por uma tema já explorado com sucesso por José Padilha em Ônibus 174 (2002). A intenção de Barreto foi mostrar, em forma de ficção, um retrato de Sandro Nascimento, o sequestrador do ônibus. O diretor explora o fato da “troca de identidades”: a mãe de Sandro, Marisa, perde o filho ainda bebê para o tráfico de drogas. Anos depois, ela acredita que Sandro é o filho por quem sempre procurou. Quem conduz a narrativa são dois Sandros (ou Alês): o sobrevivente da candelária, que cai no universo das drogas quando adolescente e o outro (o verdadeiro filho de Marisa) que cresceu entre os traficantes, já escolado pela vida e irá se tornar o melhor amigo de seu xará.

Aplausos para a direção de arte, fotografia e trilha, todas muito bem elaboradas. O elenco principal (todo composto por atores desconhecidos) é, salvo pequenos deslizes, muito competente e de uma visceralidade notável – o mesmo não se pode dizer de alguns coadjuvantes com interpretações frias e mecânicas. Mas o que importa mesmo e onde Próxima Parada deixa a desejar é entender porque depois de duas, três, quatro chances que a vida lhe dá, Sandro sempre escolhe o caminho errado. Levasse o foco para dentro de Sandro em vez de se preocupar com a troca de identidades e a marginalidade ao seu redor, talvez tivesse sido o diferencial.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

NINHO VAZIO

A sinopse de Ninho Vazio do argentino Daniel Burman (O Abraço Partido, 2004) diz tratar-se de um casal que, após ver seus filhos crescerem e saírem de casa, irá perceber as rachaduras do casamento. Mas Ninho Vazio é muito menos sobre reaver o que foi perdido numa relação de décadas e mais sobre como um homem encara a sua própria existência.

A excelente Cecilia Roth (Kamchatka, Tudo Sobre Minha Mãe) é Martha, a esposa que abdicou de sua vida para cuidar do marido e dos filhos e, agora, resolve recuperar o tempo perdido voltando à universidade. Acostumada às protagonistas, Cecilia é, aqui, uma coadjuvante de luxo, pois o olhar do filme é indiscutivelmente masculino. Iremos nos aproximar mesmo é de Marchetti (Carlos Bermejo), o dramaturgo que sofre da famosa crise de meia-idade. Seus filhos se foram, a esposa está cuidando de sua própria vida e lhe vem uma necessidade de buscar algo mais em sua vida e entender as escolhas do passado. Ele começa a sentir saudade de coisas que não viveu. Ou as teria vivenciado?

A sua obsessão por uma mulher mais nova – a sua dentista – não resume e nem resolverá os seus problemas, mas é parte fundamental da busca que o personagem persiste por todo o filme. Mais do que salvar o casamento ou conquistar o seu objeto de desejo, o que ele procura é conhecer a si mesmo. A trilha alterna-se entre o jazz típico das produções de Woody Allen, nos momentos descontraídos e nonsense, a um acompanhamento onipresente e chato que mal deixa três segundos de silêncio para o personagem refletir. Não é uma obra-prima, mas Burman continua construindo uma sólida carreira cinematográfica.

Cotação (de 0 a 5): 4,0

O CASAMENTO DE RACHEL

Badalado nos Estados Unidos – o filme aparece nas pré-listas do Oscar nas categorias de melhor atriz, atriz coadjuvante, diretor e até filme – O Casamento de Rachel tem um paralelo com outro filme que trata do relacionamento de duas irmãs ante a união de uma delas, Margot e o Casamento (2007, lançado diretamente em dvd no Brasil).

Mas enquanto em Margot temos uma Nicole Kidman antipática no limite do insuportável, neste filme há a iluminada presença de Anne Hathaway. E não apenas ela. Todo o elenco está em ótima forma. Apesar das poucas cenas, Debra Winger faz um belo retorno como a mãe um tanto distante das duas irmãs. A cena do confronto entre Kym (Hathaway) e Abby (Winger) é daquelas que aparecem na noite do Oscar quando e se uma das duas for indicada ao prêmio. Aliás, confrontar é o verbo favorito de Kym, deixando os ensaios do casamento de Rachel (Rosemarie DeWitt) no limiar de um desastre.

No entanto, mesmo tendo material riquíssimo nas mãos, Jonathan Demme perde longuíssimos e intermináveis minutos em momentos de celebração. Não que quisêssemos ver pancadaria full time na tela, mas com o propósito de mostrar a união e confraternização de uma família que sobrevive apesar de tudo, sobra menos tempo para explorar mais nuances da personagem e dar mais atenção a coadjuvantes importantes, como a própria Abby.

Anne Hathaway consegue seu melhor desempenho e papel no cinema até agora e faz jus aos comentários de forte candidata ao Oscar de Melhor Atriz. Já roteiro e direção são apostas altas demais para um filme que poderia ser muito mais do que é e num ano de dramas do peso de Milk, Revolutionary Road, Changeling e Slumdog Millionaire.

Cotação (de 0 a 5): 3,5

Mostra Internacional de SP: Balanço do primeiro final de semana

Posted in Buffet variado with tags , , , , , , , , , , , , , on outubro 20, 2008 by claesen

Difícil fazer um post para cada filme, uma vez que lugar de cinéfilo em época de Mostra é no cinema e não em casa, na frente do computador. Bom, mas até porque pedem-me indicações todos os dias e uma vez que um dos assuntos principais do Digestão é cinema, vamos a um resumo dos primeiros dias.

A Mostra para mim começou com os irmãos Coehn. Como bem disse Pedro Butcher na Ilustrada, nenhum cineasta americano soa tão desesperançoso como eles. Mesmo Queime Depois de Ler sendo uma comédia – e provocar boas gargalhadas – não espere sair do filme leve como se tivesse visto Kate Hudson escrevendo artigos sobre relacionamentos. Não, os irmãos Coehn são sombrios até quando fazem graça.

Foi em outra comédia a minha aposta seguinte, Rebobine, Por Favor. Dirigida pelo francês Michel Gondry, de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembraças, o filme é de um nonsense sem par. Protagonizado por Jack Black, ótimo humorista, mas afetado demais neste filme, o filme parte (assim como Brilho) de uma ótima premissa, mas que se esvai no decorrer do longa. A platéia – com mais moderninhos do que o clube Glória em suas festas fashionistas – parece não ter se importado. Riu a valer com as desventuras de dois trapalhões tentando salvar uma videolocadora. Com um final catártico e lacrimoso, eu boto minha mão com unhas roídas no fogo se ele não fizer tremendo sucesso quando estrear no circuito.

Tedium, por outro lado, é o tipo de filme que dificilmente estreará. Apesar de produções iranianas serem comuns nas telas de São Paulo, um docu-drama sobre transexuais do oriente médio não é exatamente um chamariz para público. Mas posso estar enganado. É louvável a coragem de se fazer um filme como esse, mesmo que o formato deixe bastante a desejar. Mas nada foi tão decepcionante como Alvorada em Sunset. O longa americano mostra a reunião de oito diferentes duplas em quartos no mesmo hotel. Com a premissa de refletir sobre as relações numa terra de aparências como Hollywood, o filme torna-se risível: malfeito, mal-editado e mal-interpretado, ele reume-se basicamente a uma piada só para cada situação. Exceção honrosa é a dupla formada por uma lésbica quarentona e uma massagista. Com reflexões bem colocadas e tiradas no lugar certo, é uma pena elas serem apenas 1/8 do filme.

O Silêncio de Lorna confirma que a Bélgica nos deu muito mais do que as batatas fritas, Tintin e o sobrenome Claesen desse jornalista. Estou falando dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Presença constante no Festival de Cannes, a dupla mais uma vez utiliza-se de personagens marginais para tecer uma história muito bem construída. Mais sobre ele, eu escrevo quando o filme estrear (em São Paulo, isto deve acontecer em novembro).

O Mix Brasil é apenas no próximo mês, mas Aquarela levou à sala o público que costuma lotar o festival de André Fischer. O filme contém boa parte do que os gays já passaram: o primeiro beijo, a primeira transa, o momento de contar para a mãe, a surra no colégio. A embalagem do longa é cafona até dizer chega (o piano na trilha sonora e a angústia do protagonista que não consegue se ver livre dos fantasmas do passado não descem), mas há coisas pertinentes por ali.

E encerrando meu primeiro final de semana na Mostra, há Gomorra (foto). Difícil imaginar que um filme me cause tamanho impacto durante o restante do festival. Antes mesmo do título aparecer na tela, o banho de sangue já teve início e muito sangue irá jorrar ainda para falar da Camorra, poderosa e temida organização criminosa italiana que movimenta milhões de euros e esteve envolvida até na reconstrução das torres gêmeas de Nova York. Diversos personagens cruzam-se num conjunto de prédios em que não há meio termo: ou você está contra ou a favor da máfia. “É a guerra”, frase que é ouvida repetidamente, através das paredes esburacadas, tanto por quem já está no fim da vida, como por quem mal terminou de brincar e já pega em armas e repassa drogas.

Não há concessões na trama de Matteo Garrone. Não se apegue a nenhum dos personagens, pois não haverá compaixão para os mesmos. A efeciente e pontuada trilha sonora marca o ritmo de uma trama intensa, precisa e irretocável. Tire as piadas de Cidade de Deus, acrescente os melhores momentos da crítica política e social que o cinema italiano já apresentou e você terá Gomorra. Segue o trailer:

Para voltar a falar de música: Empire Of The Sun

Posted in Al dente with tags , , on outubro 18, 2008 by claesen

Novidade australiana, o Empire Of The Sun acaba de lançar seu primeiro álbum, Walking On A Dream. Por enquanto, só em sua terra natal.

A voz do cara é idêntica à do Andrew do MGMT ou é tensão pré-show deste jornalista? Tem até uma das faixas dos aussies no seu myspace que lembra o MGMT.

Confira aqui a faixa título, bem pop delícia: