Arquivo para Joel Coen

Mostra Internacional de SP: Balanço do primeiro final de semana

Posted in Buffet variado with tags , , , , , , , , , , , , , on outubro 20, 2008 by claesen

Difícil fazer um post para cada filme, uma vez que lugar de cinéfilo em época de Mostra é no cinema e não em casa, na frente do computador. Bom, mas até porque pedem-me indicações todos os dias e uma vez que um dos assuntos principais do Digestão é cinema, vamos a um resumo dos primeiros dias.

A Mostra para mim começou com os irmãos Coehn. Como bem disse Pedro Butcher na Ilustrada, nenhum cineasta americano soa tão desesperançoso como eles. Mesmo Queime Depois de Ler sendo uma comédia – e provocar boas gargalhadas – não espere sair do filme leve como se tivesse visto Kate Hudson escrevendo artigos sobre relacionamentos. Não, os irmãos Coehn são sombrios até quando fazem graça.

Foi em outra comédia a minha aposta seguinte, Rebobine, Por Favor. Dirigida pelo francês Michel Gondry, de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembraças, o filme é de um nonsense sem par. Protagonizado por Jack Black, ótimo humorista, mas afetado demais neste filme, o filme parte (assim como Brilho) de uma ótima premissa, mas que se esvai no decorrer do longa. A platéia – com mais moderninhos do que o clube Glória em suas festas fashionistas – parece não ter se importado. Riu a valer com as desventuras de dois trapalhões tentando salvar uma videolocadora. Com um final catártico e lacrimoso, eu boto minha mão com unhas roídas no fogo se ele não fizer tremendo sucesso quando estrear no circuito.

Tedium, por outro lado, é o tipo de filme que dificilmente estreará. Apesar de produções iranianas serem comuns nas telas de São Paulo, um docu-drama sobre transexuais do oriente médio não é exatamente um chamariz para público. Mas posso estar enganado. É louvável a coragem de se fazer um filme como esse, mesmo que o formato deixe bastante a desejar. Mas nada foi tão decepcionante como Alvorada em Sunset. O longa americano mostra a reunião de oito diferentes duplas em quartos no mesmo hotel. Com a premissa de refletir sobre as relações numa terra de aparências como Hollywood, o filme torna-se risível: malfeito, mal-editado e mal-interpretado, ele reume-se basicamente a uma piada só para cada situação. Exceção honrosa é a dupla formada por uma lésbica quarentona e uma massagista. Com reflexões bem colocadas e tiradas no lugar certo, é uma pena elas serem apenas 1/8 do filme.

O Silêncio de Lorna confirma que a Bélgica nos deu muito mais do que as batatas fritas, Tintin e o sobrenome Claesen desse jornalista. Estou falando dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Presença constante no Festival de Cannes, a dupla mais uma vez utiliza-se de personagens marginais para tecer uma história muito bem construída. Mais sobre ele, eu escrevo quando o filme estrear (em São Paulo, isto deve acontecer em novembro).

O Mix Brasil é apenas no próximo mês, mas Aquarela levou à sala o público que costuma lotar o festival de André Fischer. O filme contém boa parte do que os gays já passaram: o primeiro beijo, a primeira transa, o momento de contar para a mãe, a surra no colégio. A embalagem do longa é cafona até dizer chega (o piano na trilha sonora e a angústia do protagonista que não consegue se ver livre dos fantasmas do passado não descem), mas há coisas pertinentes por ali.

E encerrando meu primeiro final de semana na Mostra, há Gomorra (foto). Difícil imaginar que um filme me cause tamanho impacto durante o restante do festival. Antes mesmo do título aparecer na tela, o banho de sangue já teve início e muito sangue irá jorrar ainda para falar da Camorra, poderosa e temida organização criminosa italiana que movimenta milhões de euros e esteve envolvida até na reconstrução das torres gêmeas de Nova York. Diversos personagens cruzam-se num conjunto de prédios em que não há meio termo: ou você está contra ou a favor da máfia. “É a guerra”, frase que é ouvida repetidamente, através das paredes esburacadas, tanto por quem já está no fim da vida, como por quem mal terminou de brincar e já pega em armas e repassa drogas.

Não há concessões na trama de Matteo Garrone. Não se apegue a nenhum dos personagens, pois não haverá compaixão para os mesmos. A efeciente e pontuada trilha sonora marca o ritmo de uma trama intensa, precisa e irretocável. Tire as piadas de Cidade de Deus, acrescente os melhores momentos da crítica política e social que o cinema italiano já apresentou e você terá Gomorra. Segue o trailer:

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Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: A maratona começa sexta-feira

Posted in Al dente with tags , , , , , , on outubro 14, 2008 by claesen

Enquanto a reformulação do novo site do Digestão não fica pronta, a notícia da semana (rs) é o início da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O Festival do Rio tem os globais e os flashes, mas é a Mostra de São Paulo, indiscutivelmente, o maior, mais tradicional e mais importante evento deste tipo no país. Tudo se deve, em grande parte, é claro, à dupla Leon Cakoff e Renata de Almeida, que garimpam durante o ano o melhor da cinematografia mundial para o regalo dos cinéfilos paulistanos e brasileiros num dos principais acontecimentos do calendário cultural de São Paulo.

Neste ano, as presenças ilustres ficam por conta de Wim Wenders, que ganhou carta branca para selecionar 15 títulos para serem exibidos, Benicio del Toro, que traz o aguardado Che (pelo qual seu nome ronda as listas prévias do Oscar) de Steven Soderbergh e Pablo Trapero, que recebe uma homenagem com alguns de seus títulos (incluindo o mais recente Leonera). O júri conta com, entre outros, os diretores Hugh Hudson (Carruagens de Fogo) e Samira Makhmalbaf (A Maçã).

Entre os 453 títulos que serão apresentados, poderemos ver muitos diretores estreantes ao lado de veteranos como Ingmar Bergman, que ganha restrospectiva, com 12 títulos, focada sobretudo nos anos iniciais de sua carreira. Bem que Liv Ullman, que passou na semana passada pela cidade, poderia ter esticado um pouco mais a sua visita para apresentar os filmes.

Alguns longas já falados aqui (clique no nome do filme) estão na lista entre os mais aguardados como Rocknrolla – A Grande Roubada, de Guy Ritchie; Choke, de Clark Gregg e Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei, de Ed Harris.

Também estão programados os novos dos irmãos Coen, Queime Depois de Ler (que eu verei na sexta-feira e farei uma crítica aqui), dos irmãos Dardenne, O Silêncio de Lorna; de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona; do doido do Michel Gondry, Rebobine, Por Favor e Matheus Nachtergaele, A Festa da Menina Morta, entre tantos outros.

A Mostra acontece em 22 salas da cidade e mais o tradicional vão livre do Masp, de 17 a 31 de outubro. Depois, normalmente, há a tradicional “repescagem”, por uma semana, em algumas salas da Paulista, que traz uma parte dos filmes mais votados e badalados do evento. Preços, horários e a programação completa você encontra no funcional site do festival: http://www2.uol.com.br/mostra/32/

Se nos cruzarmos pelas sessões, não hesitem em chamar para um papo. Bons filmes para nós todos!